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segunda-feira, 30 de julho de 2012

O fascinante caso dos chocólatras da Bela Vista

A Zé Rubem Fonseca e Zé Saramago.



Abre a porta de casa e espanta-se com o ambiente em penumbra. No ar, um aroma perfumado, adocicado, estranho ao olfato. Percebe, ao pisar o assoalho, que todo o chão da sala e do corredor está coberto por pétalas de rosas. Caminha lentamente, desconfiado de que estejam lhe pregando uma peça. Na mesa, velas acesas, taças e uma garrafa de vinho. Um bilhete, a letra da mulher: “Tire a gravata, tire a camisa, tire as calças, venha para o quarto”. Ele para, reflete por um instante: há quanto tempo o relacionamento esfriou? Fazia meses que não transava com a esposa, talvez um ano... ou mais? Nada daquilo fazia o menor sentido. Mas que saída ele tinha a não ser pagar para ver? Ainda cogitou andar de lado, feito um caranguejo, sair de casa e entrar de novo, para ver se tudo aquilo desaparecia como mágica, e as coisas voltavam à normalidade. Mas não. Pensou melhor: e se fosse verdade? Lembrou-se dos primeiros anos de casado. A mulher era jeitosa, a vida sexual era ótima, existia carinho, compreensão, conversas agradáveis. Não havia o histrionismo dela, a implicância com pequenas coisas - como uma toalha molhada em cima de cama, os ciúmes irrefreáveis. Chegou ao quarto e encarou a cena não sem surpresa: estava ali sua esposa, com quem se casara quatro anos antes. Com o corpo nu, coberto de chocolate. “Ela enlouqueceu”, pensou. O interessante é que não sentiu o menor tesão. Só gula. Adorava chocolate, e a mulher ali, coberta de calda de chocolate, com chocolate até o pescoço, escorrendo pelos seios, braços, ventre, coxas, panturrilhas, indo cobrir-lhe os dedos dos pés, inundando o lençol. Ele achou que deveria ter nojo, mas sentiu fome. Aproximou-se da mulher e lhe lambeu o rosto, única parte onde não havia chocolate. Achou indigno ir direto ao que interessa, chocar a mulher com a falta de apetite sexual em detrimento ao excesso de voracidade gustativa. Só então começou a se fartar de chocolate, lambendo euforicamente o pescoço, o peito e indo até a barriga, onde parou no umbigo. Ali se deteve por mais tempo, aproveitando a pasta acumulada na cavidade, e então teve um clique! Havia, sim, uma reentrância onde o chocolate haveria de se acumular mais abundantemente. Desceu a boca até lá, e lambeu, lambeu e lambeu mais, até sumir o gosto doce e sentir o salgado da pele novamente. Virou a mulher de bruços e, com um movimento frenético de língua, bebeu também o chocolate que tinha ido para o cu. Aos poucos, lambida toda como uma gata, a mulher foi recuperando a brancura da pele, mas o marido não se saciava, procurava ainda mais doce para sugar, lambia a axila, a dobra da perna, a nuca, e comia chocolate misturado com cabelo, com pelo pubiano, com suor, com muco. A mulher, até então impassível, sem um gemido, riso ou suspiro, esperou que ele terminasse e caísse exaurido ao seu lado na cama, rolando no lençol achocolatado, empapuçado e feliz. Então ergueu-se, caminhou lentamente até o banheiro, deixando um rastro marrom pastoso pelo caminho, lavou as mãos e o rosto que estavam grudentos. Quando voltou, tinha um objeto pontudo e brilhante nas mãos. Antes de enfiar a faca no peito do adormecido marido, ainda fez a observação aborrecida:

- Bolas, eu pedi pra você tirar a roupa! Sangue, merda, urina, chocolate, mais tarde vou ter que queimar essa porra toda... Paciência.

Depois de retalhar o corpo, com uma machadinha, separou a cabeça para colocar num saco. O rosto do marido estava inteiramente marrom, como a cabeça de um escravo etíope. Teve um ímpeto, retrocedeu enojada. Mas acabou não resistindo: num solavanco, como se aquele desejo fosse mais forte do que ela, deu uma demorada e sôfrega lambida na cara achocolatada do marido decapitado.  

                                                                                                                      Por Rafael Gimenez.




quinta-feira, 3 de março de 2011

Iracema

“Iracema, meu grande amor foi você.”, Adoniran Barbosa.


Ardia em febre. Seus sonhos eram alucinações e acordava banhado em suor. Lembrou-se do irmão mais velho lhe ensinando o macete: “Primeiro você cospe nos dedos e enfia no buraquinho. Ela nem berra. Depois, quando tiver duro o negócio, você enfia bem devagarinho. Deixa um pouquinho lá dentro e tira de novo. Dá uma cuspida no pau e enfia traveiz. Aí o negócio vai de jeito”. Ele teve um pouco de nojo na primeira vez. O ânus de sua parceira era quente, úmido, meio melado. O cheiro era muito ruim. Depois de gozar, saiu correndo desabaladamente em direção ao matagal e durante dias não saiu pra brincar fora da casa. Sentia-se humilhado na presença dos colegas, na escola. Era como se todos soubessem. O mais velho da turma, Galego, já comia mulheres de verdade. Pelo menos era o que dizia. Sentia-se sufocado, precisava compartilhar com alguém aquela dor que o desconsolava. Galego comia a sopa rala da merenda, isolado num canto do pátio, na cabeceira da longa mesa. Numa atitude ousada, veio sentar-se perto dele.


“Galego, posso sentar aqui?”


“Se for pra me aporrinhar, não.”


Não sabia o que dizer. Ficou soprando a sopa enquanto o outro comia.


“Como é que é com mulher de verdade?”


“Quê?”


“O sexo. Como é? É bom?”


O outro o encarou, surpreso.


“Depende.”

“Depende de quê?”


“Depende da mulher e da nossa vontade. Por que você quer saber, seu merdinha?”


Olhou Galego novamente sem saber o que dizer. Sabia onde queria chegar, mas não sabia o caminho. Resolveu falar duma vez:


“Você já transou bicho?”


Espanto maior do outro. Este sorriu interiormente.


“Não. É bom?”


“Não sei. É diferente...”


“Conta aí. Como é?”


Sentiu um alívio. Galego lhe pedia, interessado, para dividir a experiência. A cadeia tinha sido invertida. Narrou com pormenores seu coito com Iracema, a cabra. Conforme contava, sentia como se aquilo de repente se tornasse um feito digno. Molestara o animal com sua virilidade nascente, tivera coragem para aquilo. Valentia que nem o temido Galego teria. Contraiu os lábios ao falar do gozo, forçou as expressões para se passar por um legítimo malandro. Eram iguais, Galego e ele. Homens. Quando terminou, Galego lhe disse:


“Amanhã vou lá. Quero ver como é”.


O baque lhe pegou de surpresa. Não esperava que alguém quisesse ver. Foi tomado de pânico súbito. Saiu correndo do pátio, escondeu-se no banheiro. Lá ficou até o momento de ir embora. Em casa, apresentou-se taciturno. Depois de terminada a refeição, pediu permissão pra brincar no curral.


“Vá, meu filho. Mas não se suje”.


Aproximou-se de Iracema, que calmamente cheirava um arbusto. Sentiu uma febre que lhe devorava as entranhas e seu primeiro impulso foi o de correr de volta à casa. Lembrou-se, porém, de ter impressionado Galego com seu relato da tarde. Pensou na sensação quente e protetora que vinha do cu da bichinha. Olhou para os lados, puxou Iracema para detrás do celeiro. Gozou mais rápido do que da primeira vez, com um pregador de roupa lhe tapando as narinas. Limpou-se numa peça de roupa do varal, voltou para o quarto e ficou lendo “Memórias de um sargento de milícias”, que a professora tinha dado.


***


O irmão lhe advertiu:


“Você não pode ir todo dia. Pai vai perceber”.


Olhou-o com um esgar de choro:


“Eu parei com essa nojeira”.


“Parou uma porra! Pensa que não sei que todo dia que você some à tarde, você vai lá pro fundão do sítio? Pai um dia vai ver o cu da cabra alargado e vai dar em nós! Se eu entrar por sua causa, eu arrebento você”.


O menor se enfureceu.


“Arrebenta? Pois se você me ensinou essa porra! Eu tava muito bem de punhetinha! Essa putaria é invenção sua!”


“Invenção minha e que mal não faz. Mas tem que saber a hora de fazer, sua mula”.


Calaram-se ao ver o pai se aproximando. Este achegou-se, fez um cafuné no menor.


“Tá cabreirinho? Que foi?”


“Nada não pai, bença”, e saiu correndo.


“O que tem seu irmão?”


“Sei não, pai. Esse bicho aí é muito arredio demais.”


“Seu irmão anda estranho. Mas vou descobrir o que é”, disse o velho, coçando o queixo.

***



Comia o macarrão-parafuso com uma colher mal lavada quando sentiu a presença de alguém a seu lado. Era Galego.


“E então, garanhão? Quero ver aquela cabra lá!”


“...”


“Como é? Veio me contar o negócio só pra me deixar na vontade? Me leva lá hoje.”


“Vá à merda”.


Ficou surpreso da própria coragem. O outro mudou de expressão, parecia que o mundo havia parado de girar até que se desenrolasse o conflito. Mas Galego riu:


“Tá brabo, comedor de cu de cabra?”, e completou: “Ou tu me leva, ou conto pra todo mundo que o Guri tá com o pau todo encravado de merda de animal”.


O medo lhe fez aceder.


“Tá certo. Hoje nós vai lá. Mas ninguém pode saber.”


“Segredo de amigo meu eu guardo como se fosse meu”.


Ser chamado de amigo lhe deu um certo orgulho. Galego não tinha amigos. E ele, também não. Mas quem era amigo de Galego não precisava de amigo nenhum. Não precisava nem de Deus.


***


Amarraram Iracema numa corda e foram levando-a. As sucessivas curras tornaram o animal um pouco arredio. Guri, ao não se sentir correspondido, via aumentar sua paixão a cada dia. Agora, tinha ciúmes. Mas não sabia dizer se de Iracema ou de Galego, que olhava a bichinha fixamente, com intensa curiosidade. Chegaram ao fundão. Galego apenas disse:


“Como é que faz?”


“Você pega ela assim e...”

“Não, vai você primeiro que eu vou depois”.

Abaixou as calças e viu seu pênis diminuto completamente mole. Já estava com vergonha do outro.


“Não consigo. Na sua frente não dá”.


“Ah, finge que eu nem tô aqui”.


Cuspiu na mão, começou a se masturbar. E nada. Aquilo ia durando um bom quarto de hora e Galego assistia, divertido. De repente, aproximou-se. Abriu o cinto, baixou a calça jeans. Guri ia resmungar que ele tinha dito que ia depois, até que se sentiu dominado. Galego passou-lhe uma rasteira que o jogou ao chão, virou-o de costas para ele. Desesperado, ele percebeu que não teria forças para reagir. Galego ia introduzindo-se quando ouviram um tiro ao longe. Foi o tempo de correr e enfiar-se no mato, deixando as calças para trás. O pai chegou instantes depois, enfurecido.


“Que viadagem é essa aqui?”


“Pai, eu... Pai...”


As palavras lhe engasgavam, um turbilhão de sílabas querendo sair por uma boca só. Sentiu fraqueza nas pernas. A imagem do pai, espingarda na mão, nublou-se e sua voz parecia vir de léguas além de distância. Quando tudo de apagou, ele teve um segundo para sentir alívio.
Quando acordou, o pai lhe contou das providências práticas. Havia chamado um médico, para ver o que ele tinha. E vendido a cabra. Ele teve vontade de gritar, de chorar, de encolher-se até sumir. Mas não fez nada. Prostrou-se numa tristeza e solidão tão absolutas que durante várias semanas a casa adquiriu ares de velório.


***


Agora era aquele pesadelo dentro do pesadelo, Galego tirando o pinto pra fora e ora enrabando Iracema, ora correndo atrás dele. Quando acordava, dizia coisas ininteligíveis. O médico chamou os pais, disse baixinho:


“Essa febre já dura três dias. Não é tuberculose. Juro que nunca vi uma coisa parecida com isso.”


“O menino tava tão bem... Ficou assim de repente!”, lamentou-se a mãe.


O pai pouco falava, mas carregava uma expressão devastada. Ouviram Guri dizer, em meio a um pesadelo:


“Iracema... Iracema...”

Somente lá pela quarta semana ele começou a melhorar. A febre ia baixando e já se dizia que estava fora de perigo. Mas nunca mais foi o mesmo. Deixou de ir à escola, ficou trabalhando na roça. Sua alegria se quebrara. Quando estavam no mesmo recinto, evitavam os diálogos ele e o pai. Não se sabia se por vergonha mútua ou se por ódio. Nunca se saberia, também, se Guri perdoara o pai por ter sumido com Iracema. Ou se lhe devia o favor de um grande alívio.
O certo é que depois viria a se casar, amar, ser feliz. Mas de algumas coisas nunca se esqueceu. Sobretudo de que o primeiro amor é forte e viscoso.



Rafael Gimenez.




sábado, 25 de dezembro de 2010

O casulo

Chamava-se Butterfly. Quem lhe deu o pitoresco nome foi o pai, um excêntrico engenheiro, projetista de aeronaves, que sumiu no mundo quando ela contava cinco anos de idade. Um ano depois, a mãe suicidou-se. Foi criada pelos tios desde então. Tornou-se uma jovem esquiva, pouco comunicativa, que ficava boa parte do tempo trancada em seu quarto lendo, ouvindo música e divagando em elucubrações. No dia em que completou dezesseis anos, formou-se um conselho de família. Tio Heitor, grave como o tuberculoso histórico que era, decretou: “Deve se casar. Casando, se endireita!”


Ela, miúda, magrinha, rosto muito pálido, jamais dera pelota ao sexo oposto. É bem verdade que foi mantida reclusa durante toda a infância, estudando em internatos de meninas e criada sob os olhares de mordomos, babás, motoristas. Mas agora, diante dos partidos que se apresentavam, demonstrava a mais patética e aterradora indiferença. Com um rapaz loiro, de rosto corado, filho de um industrial, chegou a ser taxativa: “Agradeço seu interesse, mas as coisas que você me diz definitivamente não me importam”.


Tal comportamento, que parecia resoluto e definitivo, desesperou a família. Tia Cassilda, a mais progressista daquela família conservadora, propôs o que lhe parecia uma solução, após fazer suas constatações: “Prendemos demais a menina. Acho que chegou a hora de deixá-la caminhar com as próprias pernas”. Na falta de saída melhor, resolveram “entregar nas mãos de Deus”. Organizou-se uma agenda social para Butterfly. Passou a freqüentar festas, inicialmente na companhia das primas. Cortejada pelos rapazes, continuava a esnobá-los, porém agora com encenada simpatia e divertida curiosidade. Permitia sua aproximação, dançava com eles, para depois desprezá-los, aturdi-los e humilhá-los com um requintado ar de desinteresse.


O tempo foi passando, a família já aceitava a idéia de mandá-la a um convento. Um dia, saiu para passear com as primas, caminhavam pela orla da praia. Viram, caído na calçada, um mendigo. Seu rosto adquirira um tom esverdeado, os cabelos eram cinzentos e imundos, os trapos esfarrapados que cobriam seu corpo pareciam estar se desfazendo. As primas, com asco, apertaram o passo, mas ela se deixou ficar, fascinada, olhando aquele pobre homem. Foi preciso que a puxassem e ela, já longe, ainda virava o pescoço para trás, olhando aquela criatura como se fosse um anjo que a chamasse. Nos dias seguintes, se apresentou mais silenciosa do que já era. As tias julgaram que perdera de vez o juízo. Num sábado, quebrou o silêncio: “Quero exercer minha verdadeira vocação. Quero ajudar as pessoas”. Não se opuseram. Comprou-se um grande carro, alugou-se uma casa. Escolheram o nome, que mandaram gravar numa placa: “Lar de Desvalidos ‘São Judas Tadeu’. Ia pessoalmente ver os internos, pessoas sem família que recolhiam das ruas, onde antes viviam doentes, esfarrapadas, fodidas.


Mudou. Tornou-se, desde então, radiante. Os tios se chocaram quando, durante um jantar, contou uma anedota. Era uma coisa inimaginável, logo ela, que nunca sorria, que não achava graça em nada. Achavam, positivamente, que ela tivera sua epifania na caridade. Deixaram de importuná-la com preocupações de casamento. Todas as tardes ela passava no abrigo e, um dia, chegou à casa acompanhada por um rapaz, muito alto e distinto. Os tios a tudo assistiram pela janela. Perguntaram quem era e ela respondeu: “Um amigo. Tem me ajudado no abrigo”. Não fizeram mais perguntas. Todos os dias, porém, o amigo a trazia em casa e, um dia, foi convidado a entrar e jantar com a família. Acharam-no formidável, educadíssimo. E nitidamente apaixonado por Butterfly. Contrariando todas as expectativas, quando lhe sugeriram que ele daria um bom marido, Butterfly acedeu. E noivaram. Um ano depois, se casaram com todas as pompas esperadas. Não partiram para a lua-de-mel: Butterfly não queria se afastar do abrigo. Achando que ela progredira demais, que era outra mulher, preferiram não discutir. O próprio marido, um anjo de candura, concordou. Faria-lhe todas as vontades.


Foram da igreja para casa, e ela causou-lhe a primeira frustração: alegando muito cansaço, deitou-se na cama e dormiu. Apaixonado e paciente, ele não insistiu. Teriam a vida toda. No dia seguinte, a mesma coisa: “Trabalhei o dia todo, atendemos um leproso no abrigo. Não tenho cabeça para isso”. Na terceira noite, ele se doeu. Alguma coisa não lhe cheirava bem. Deitou-se junto a ela, tocou-lhe o seio. Ela deu um berro aterrador, que lhe paralisou:


“Não me toque! Eu te proíbo! Você não me tocará nunca, está ouvindo? Nunca!”


Ele entrou em desespero. Não sabia o que fazer. No dia seguinte, trancou-se à chave com Tio Heitor, Tia Cacilda, Tia Amélia. Relatou-lhes o que acontecera aos recém-casados. Tio Heitor resmungou um palavrão. Dirigiu-se a ele:


“Tenha santa paciência! Você dorme com a minha sobrinha na mesma cama e não consegue despertar nela o menor desejo? Que tipo de homem é você?”


Quase botou-lhe pra fora, aos pescoções. No fundo, não queria mais nem ouvir falar daquela sobrinha. A partir do momento em que disseram “sim” no altar, aquele pepino deixara de lhe pertencer. Tia Cacilda, sempre mais sensível aos problemas dos outros, foi ter com ele à porta:


“Calma, Carlos. Minha sobrinha é diferente das outras moças, você bem sabe. Trabalha com ela no abrigo, deveria saber já disso...”


Ele a interrompeu, surpreendido:


“Trabalho com ela no abrigo? Quem lhe disse isso? Jamais estive nesse tal abrigo. Conheci Butterfly na rua, quando despencou do céu um aguaceiro e eu corri a acudi-la com meu guarda-chuva.”


Só então Tia Cacilda deu-se conta: conheciam muito pouco aquele rapaz, e a pequena mentira contada por Butterfly sobre a origem da relação dos dois não lhe cheirava bem. O que a garota poderia esconder? Tia Cacilda finalizou a conversa dizendo que tudo ia se resolver e voltou para o interior da casa, com o rosto muito grave, pensando numa série de possibilidades.

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Irritado com a infrutífera conversa que tivera na casa da família da esposa, Carlos esperou que ela se recolhesse. Como todas as noites, no escuro, ela despiu-se e vestiu a camisola. Deitou-se. E então aconteceu: Carlos a agarrou, arrancou suas roupas e as dela. Aquele rapaz, sempre tão cortês, doce, transfigurava-se no monstro. Ela quis gritar, uma mão sufocou sua boca. Em seguida, empurrou sua cabeça em direção ao baixo-ventre, obrigando-a a iniciar a felação. Uma péssima idéia. Butterfly, bicho feroz, mordeu-lhe o pau. Ele soltou um grito lancinante, sua visão ficou turva. Ela aproveitou para correr e trancar-se no banheiro. Lá ficou a noite toda. O incidente demoveu Carlos de futuras tentativas. Com o caralho inchado e dolorido, passava os dias parado na repartição em que trabalhava, o olhar perdido, a mente longe. Amava Butterfly com todas as suas forças, mas agora tinha certeza de que a recíproca não era verdadeira. Tinha para si, agora, que fora usado para fins escusos, para ludibriar a família, a sociedade, o diabo. Resolveu ir ao abrigo comunicar à esposa que não toleraria aquela situação.

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Era tarde quando chegou ao lar dos desvalidos. Todos os funcionários haviam partido. Porém, ele tinha uma cópia das chaves, que mandou fazer à revelia de Butterfly e que um dia poderiam ser úteis. Foi abrindo as portas que davam acesso à ala dos internos. Ouviu, do corredor, gemidos. Imaginou que um casal de mendigos estivesse fornicando, embora as alas dos internos fossem separadas por sexo. Curioso, dirigiu-se para o lado onde ouvia as vozes e estacou, petrificado. Reconheceu a voz de um dos gemidos. Por um instinto mórbido, quis se certificar. E viu, pela janelinha da “cela”, deitados na cama, Butterfly e um homem. Devia ter mais de sessenta anos. Tinha os cabelos desgrenhados, barba grande, o corpo de uma coloração bege-escura. Carlos colou o rosto naquela passagem e viu, nítido, o grosso cacete ensebado e cheio de marcas do ex-morador de rua invadindo a delicada vulva de sua mulher. Ficou sem ar, caiu de joelhos, ofegando.


Em casa, na companhia da mulher que agora sabia adúltera, ficou taciturno. Não dirigiu-lhe palavra. Dormiam em quartos separados desde a tentativa de castração. Vez por outra, durante o jantar dessa noite, fitava-a com ódio. Ela captou sua fúria, mas não tinha coragem de lhe dizer nada.


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No dia seguinte, pediu a um amigo de confiança que lhe indicasse um detetive. Queria saber tudo o que a mulher fazia: onde recolhia os mendigos, se mantinha relações com eles apenas no abrigo, se tinha outros amantes na rua. O detetive, daqueles de estórias em quadrinhos (só faltavam-lhe a lupa e o cachimbo), tinha seu marketing mais forte justamente no esteriótipo. Apareceu duas semanas depois com os resultados. Disse ao contratante:


“Amigo, eu já vi de tudo nessa vida, nessa minha profissão. Mas sua mulher me deixou besta. Já diria o profeta: o sertão vai virar mar, o mar vai virar sertão. Acho que o apocalipse está chegando aí, pra transformar as putas em santas e as santas em putas”.


Estendeu-lhe um envelope com fotos.


“Deposita o restante na minha conta. E, precisando de algo mais, pode me procurar”, frisou o investigador, antes de apertar-lhe a mão e sair.


Sozinho na repartição, ele tinha medo de abrir o envelope. Seu coração ia à boca. Afinal tomou coragem, quase rasgou o invólucro, alucinado, febril. As imagens, num turbilhão, invadiram seus olhos com matizes de pesadelo. Eram fotos de sua mulher, sua linda, pálida e pequena mulher, com os tipos mais esdrúxulos. Mendigos da mais decadente precariedade. Um mecânico negro, caolho, sujo de graxa. Um tipo esquálido, com cara de retirante, avental de uma peixaria. Um perneta. Um jovem com síndrome de down. Um anão. As primeiras fotos eram flagras dela passeando publicamente com os sujeitos, entrando ou saindo de edifícios. As últimas, que o detetive astutamente deixou para o final naquela seqüência, como se fora um álbum de terror, eram provas cabais: sabe-se lá como, fotografou Butterfly no coito com alguns dos amantes.


Ele ficou um tempo paralisado, o olhar perdido no nada. Então voltou a si. Tirou da gaveta o revólver. Da rua, ouviu-se o estampido.

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Ao saber do ocorrido, Butterfly correu ao hospital. Os tios a olharam com nojo: tio Heitor tinha no bolso o envelope com as fotos, encontrado sobre a mesa do suicida. Ela se dirigiu ao quarto, na porta encontrou um médico, que lhe explicou:


“A bala atravessou-lhe a têmpora. Não morreu por milagre. Mas... nunca mais será o mesmo. Lamento”.


Invadiu o quarto. Chorou diante do infeliz marido. Ficou ao lado dele durante todo o período em que ficou em coma. Muitas semanas depois, levou-o para casa, numa cadeira de rodas. Estava em estado vegetativo, babava. Ela lhe dava banho, lhe dava de comer, limpava seus excrementos, com um lenço ia recolhendo a saliva que lhe escorria pelos cantos da boca. Enfim o amava.


Por Rafa Gimenez.


sábado, 19 de junho de 2010

Pega no drops do tio!

Dedicado ao amigo André Diniz.

Oliveira senta-se à mesa, acende um cigarro, está louco para que aconteça uma merda que o tire dali. Negócio é sair em diligência, nem que seja pra recolher presunto de chacina. Nessa altura da vida, a adrenalina já se tornou costume e o tédio é o pior inimigo. Entra Alencar:


“Oliveira, você foi designado para participar da Operação Homem do Saco. Os federais vão dar apoio. Vamos sair em cinco minutos!”


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A Operação Homem do Saco é a maior já montada no estado para o combate à pedofilia. Conhecida informalmente também pelos nomes de “Operação Michael Jackson” e “Pega no drops do tio”. Dezenas de suspeitos investigados, algumas prisões programadas. Nada muito espetacular, apenas uma resposta à sociedade. “A pedofilia é a grande praga desse século”, diz Alencar. “Já existia antes, mas as pessoas só ficam chocadas com isso agora. Lembra do caso do pedagogo?”


Oliveira se lembrava. A polícia recebeu denúncia, prendeu o responsável por um educandário, devassou a vida do homem, exposição pública, humilhação, vergonha. Depois, descobriram, era inocente. Tarde demais. Com a vida destruída, deu um tiro nos cornos.


“Lembro. Qual é o procedimento hoje?”


“Estamos indo nos encontrar com um informante. Codinome Garotinho. Na verdade, ele estará envolvido na operação. Tentou entrar pra corporação, mas não tinha altura suficiente. Tem quase trinta anos, aparenta doze”.


“Siga”.


“Se passando por garoto de doze anos, marcou encontro com um sujeito conhecido como Raul Gil. Golpista. Diz que trabalha como olheiro pro apresentador homônimo, seduz os pais com proposta de fama rápida pros guris, leva os meninos pra casa, papa eles”.


“Compreendido. Siga”.


“Garotinho quer uma chance no programa, por isso aceitou o encontro. Vai dizer pro Raul Gil que é emancipado”.


“O cara não vai cair”.


“Vai cair. É deficiente mental. Acredita mesmo que é empresário de talentos”.


“Siga”.


“Quando o Garotinho estiver na casa com o pedófilo, estouramos e damos o flagrante. Esse elemento é suspeito de mais de trinta crimes”.


“Não entendo uma coisa. Se ele é deficiente mental e já papou mais de trinta meninos, como não pegaram o cara antes? Não devia estar já num sanatório?”


“É protegido de um figurão. O cara sempre tira ele. Só fazendo esse esporro vamos conseguir engaiolar o cara”.


“Garotinho vai estar armado?”


“Vai. Uma 9 mm. Mas a gente não vai esperar ele usar. Há um sinal combinado. No sinal, a gente entra e faz o serviço. Tudo tranqüilo, a baba do boi”.


“Baba do boi”, pensou Oliveira. “Sempre que é baba do boi, dá merda”.

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À paisana, do lado de fora do restaurante, Oliveira fuma um cigarro. No carro, está Alencar. Mais dois veículos nas proximidades, com policiais paisanos. Dentro do restaurante, numa mesa próxima a do suspeito, mais um policial. O tempo demora a passar. “O tédio é o pior inimigo”, lembra Oliveira. Começa a divagar. O corpo de Laura, alvo, branquíssima brancura. Ela tira a blusa, olhando nos seus olhos, passando a língua nos lábios. Mexe lentamente os quadris, sua cintura de cobra coral rastejante, esguia. “Larga essa vida e vem viver comigo”, pedia. Laura não dava atenção, “vem meu policial gostoso, pega a tua putinha de jeito”. O pau de Oliveira fica ereto dentro da calça, ele sente repulsa. Nunca se distraiu numa operação. Além do mais, Laura estava fodendo com um colega do departamento. Vadia”.


Vê o sinal irritado de Alencar, olha para a entrada do restaurante. Garotinho vai saindo, seguido por Raul Gil. Disfarçadamente anda na direção do carro, entra. Raul Gil e Garotinho entram num carro, saem.


“Não vamos seguir, pra não dar brecha. O endereço do puto é conhecido, já tem gente nossa lá. Vou pegar outro caminho”.

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Recebem uma mensagem de rádio:

“Alencar, o suspeito está desconfiado. Parou o carro num posto a duzentos metros do local do restaurante. Desceu do veículo, ficou olhando ao redor. Depois saiu com o veículo retomando a rota. Por enquanto, segue a rota pro local de domicílio. Estamos no encalço. Entendido?”


“Soares, mudança na operação. Sai daí. Não quero mais ninguém seguindo o cara. Estou a dez minutos do domicílio dele, tenho certeza que ele vai pra lá. Manda nosso pessoal sair de lá e ficar na rua transversal. Não quero ninguém seguindo o veículo. Repito: não sigam o veículo. Entendido?”


“Positivo, Alencar”.


“Alencar, isso tá esquisito”, Oliveira.


“O cara vai pra casa dele, e a gente pega ele lá. Tudo dentro do plano”.

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Cortando caminho, chegam antes do suspeito e estacionam próximos à casa. A casa é um barracão com quintal, numa rua escura. É noite.


“Porra, é aqui que o cara mora? Que merda, hein?”


“A fachada do sujeito só vai até o carro e o cartão de visitas.”


“E o tal figurão, que protege o elemento?”


“Tá pouco se fodendo. Devia favores pro cara, deu o carro. Dá uma grana mensal, que o puto gasta nos almoços e jantares com os pais dos moleques. Tira ele da cana sempre que o cara vacila, porque tem o rabo preso e sabe que o papa-anjo pode dar com a língua nos dentes”.


“Incrível como é fácil enganar otário”, pensa Oliveira. “No entanto, eu seria um bom pai, mas nunca botei filho no mundo”. Pensa novamente em Laura. Laura é uma puta, mas ele queria ter um filho com ela. Alencar corta suas elucubrações:


“Caralho... Estão lá tem quinze minutos, nada do sinal”.


“A baba do boi, né? Filho da puta”, pensa Oliveira. “Segura a onda”, diz em voz alta.


“Vai tomar no cu, Oliveira. Segura a onda o caralho!”


Uma tensão começa a surgir entre os dois, mas logo é cortada por outro carro que se aproxima. Oliveira abre a porta lentamente e se esgueira para fora da viatura.


“Oliveira!”, sussurra Alencar. “Volta, porra!”


Oliveira segue se esgueirando, engatinha e se oculta na sombra de um muro. Está próximo do carro que chegou. Dentro dele, um casal. Consegue ouvir seus sussurros. Sente a presença de alguém, é Alencar atrás dele:


“Filho da puta!”


Oliveira faz um sinal com as mãos, mandando Alencar se calar. Os dois observam o carro estacionado. Os sussurros aumentam. Veem claramente: ele, um homem jovem, vinte anos no máximo. Ela, uma mulata. Estão pegando fogo. A mulher já está sem a blusa, tem seios volumosos. Palavras obscenas facilmente são compreendidas pelos policiais. Ambos se esquecem, por alguns minutos, do que foram fazer ali.

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Garotinho se debate, tentando escapar das garras de Raul Gil. Este é meio mulato, forte, enorme, e o subjuga com facilidade. Com os joelhos, segura as pernas de Garotinho no chão. Prensa seu corpo contra o dele, se esfrega. “O tio não vai te machucar, meu menino”. Garotinho se revolve e urra. “Você vai ser uma estrela, menino”. Garotinho sente a enorme pica de Raul Gil penetrando seu ânus, e uma dor lancinante quase o faz desmaiar. Quer gritar, mas sente o vômito lhe tomando conta da garganta e subindo pra boca. “Ah, ah ah, meu menino”, Raul Gil repete, arfante.

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O casal prende a atenção dos policiais, até que ouvem tiros. Correm, cercam a casa. Alencar arromba a porta, se assusta com o que vê: Raul Gil crivado de balas, Garotinho sentado, nu, com o rosto entre os joelhos, mais garotinho do que nunca. Ergue a cabeça, vê os policiais:

“Seus filhos da puta! Onde vocês estavam, porra? O cara comeu meu cu! O cara comeu meu cu! O cara comeu meu cuuuuuuuuuuu, porraaaaaaaaaaaaaa!”


Oliveira se aproxima, dá um tapa no rosto de Garotinho, que volta a si. Silêncio durante alguns segundos. Depois murmura, choroso: “o cara comeu meu cu...”


“A baba do boi”, pensa Oliveira.

“Minhas sentidas desculpas, Garoto. Você passou o acusado, mas pega nada pra ti. Vai nessa que a gente limpa a barra”, disse Alencar. Garotinho o olhou com ódio:


“É o mínimo, né? O cara comeu meu cu”.


“Vira o disco, porra”.

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Oliveira chega em casa, molha o rosto, lembra-se do casal fazendo sexo na rua escura e do pobre Garotinho chorando depois da curra. “Chega dessa merda”, pensa. “Amanhã peço baixa”. Decide procurar Laura, tirá-la da vida, ter um filho com ela. Dorme com o 22 na mão esquerda, desamparado na poltrona. Sonha com Laura e sua branquíssima brancura.


Por Rafael Gimenez.

sábado, 13 de março de 2010

Antes que o corpo esfrie

Dona Gertrudes esperava o leite ferver na panela quando caiu dura no chão. Seu filho Belisário encontrou-a morta assim que chegou do trabalho. Pela primeira vez em sua vida viu-se livre da presença opressora e permanente da mãe. Filho único, abandonado pelo pai, foi criado sob mil cuidados e olhares por aquela mulher austera, amargurada, neurótica, possessiva. Tinha agora trinta e dois anos e jamais ficara nu na frente de uma mulher que não fosse a mãe.

A notícia da morte da velha correu por todos os ouvidos e o velório foi um evento. Boa parte das pessoas, condoídas com a situação do pobre rapaz, compareceram para dar apoio. Outras, contudo, conhecendo o temperamento mesquinho da falecida, foram confirmar se ela realmente havia morrido e gozar a visão do corpo acondicionado no caixão, mantendo a expressão dura que carregou em seu rosto durante todos os anos de sua vida e que agora levaria para o inferno. As velhas do bairro não tinham dúvida: ela iria para o inferno.

O fato é que Belisário era um rapaz muito querido por todos. Sua timidez e educação cativaram todos os vizinhos, ao longo dos anos. Era diferente dos rapazes de sua idade. Não saía pela vila de madrugada fazendo algazarra, bebendo e desrespeitando as moças. Mais de uma senhora desejara-o como genro, mas dona Gertrudes espantava todas as pretendentes. Os homens achavam que ele era por demais afeminado, que não devia gostar da fruta. E esse era o assunto na casa de Soninha no exato momento em que acontecia o velório. Seu irmão Joaquim tentava em vão convencer a ela e as amigas Lena e Graça de que Belisário era um maricas e que a morte da mãe não mudaria seu comportamento. "Nem mesmo belas mulheres como vocês conseguiriam levá-lo para o bom caminho", disse jocosamente Joaquim. Soninha então ergueu-se e propôs uma aposta.

"Que tipo de aposta?", perguntou Lena.

"Nós três tentaremos seduzir o pamonha. Se uma de nós tiver sucesso, Joaquim terá de acompanhar a vencedora do feito ao Baile da Primavera".

"Mas e se você conseguir? Joaquim é seu irmão", lembrou Graça.

Os dois irmãos trocaram um rápido e furtivo olhar.

"Não importa", respondeu Soninha. "Ele me recompensará de outra maneira".

Todos se olharam sérios até que Lena quebrou o silêncio:

"Está bem. Particularmente acho o Joaquim um boçal, mas admito que não há pessoa melhor para me acompanhar ao baile". O desdém de Lena era mal dissimulado e todos sabiam que ela era apaixonada por Joaquim, bem como Graça.

"Estão está decidido. Vamos nos enlutar para o velório", Soninha convocou.


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Quando Soninha, Graça, Lena e Joaquim chegaram ao velório para cumprimentar Belisário, o clima geral foi de escândalo. As três jovens usavam vestidos escuros, porém decotados e provocantes. A boca de Soninha estava pintada de escarlate, e um forte perfume emanava dela e tomava conta do ambiente. Uma velha disse para outra, em tom sarcástico: "a velha Gertrudes vai sacolejar dentro da caixa".

"Meus sentimentos, Belisário", disse Soninha ao ouvido do orfão. E completou, com voz sensual: "Estou ao seu dispor, para tudo o que precisar".

"Sinto por sua mãe. Você está mais bonito nesse terno escuro", tratou de dizer em seguida Lena, para mostrar ao rapaz suas intenções. Foi suavemente empurrada por Graça, que das três era a que tinha o vestido mais decotado, deixando entrever o nascimento de seios firmes e arredondados e o matiz moreno de sua pele lisa e brilhante. Disse-lhe, também num sussurro ao pé do ouvido:

"Livre-se dessa gente e me encontre nos fundos. Vou fazer coisas muito agradáveis para você".

Belisário a cada um desses cumprimentos mostrou-se surpreso e inibido. Respondia um "muito obrigado" quase inaudível, olhando para o chão e dando a impressão de que iria fugir correndo a qualquer momento. Joaquim, que olhava a cena divertido, aproximou-se.

"Pois é, meu camarada. A tua velha morreu, mas você está vivo. Pode contar comigo, Joaquim de Mattos, como o teu mais novo amigo". E virando-se para os presentes, disse em voz alta:

"Peço desculpas aos senhores, mas vou monopolizar a atenção do Belisário por um minutinho".

Puxou-o pelo braço, em direção aos fundos da casa.

"É, é isso aí. Isso aí. Você fuma? Não? Pega, é um charuto. É especial para este momento, pega".

Belisário recusou, mas Joaquim enfiou-lhe o charuto na boca, depois de morder ele mesmo a ponta para cortá-la, e acendeu com um pálito de fósforo. Belisário teve um acesso de tosse e Joaquim o observou sorrindo até que cessasse. Então disse:

"Vou ser direto com você, meu camaradinha. Eu sou um homem de negócios, muito prático, e resolvo as coisas sem muito embaraço. Apostei com essas três aí que você é veado. E sei que você é veado, todo mundo aqui sabe". Ficou em silêncio um instante observando a reação de Belisário, que o olhava assustado, e continuou: "Elas vão me pagar uma garrafa de uísque se tentarem te beijar e você der chilique. Porém, se você mostrar pra uma delas algum sinal da sua, digamos, masculinidade se manifestando, eu vou ter que levar a moça em questão pra um baile idiota e depois papar a 'sortuda'. Só que eu já tenho uma mulher pra papar nesse baile, e ela é muito melhor do que as amigas bobas da minha irmã. Então eu quero que você apenas cumpra com o que sua natureza já conhece: quando elas vierem, uma depois da outra, fazer graça pra você, comece a chorar. Ou então saia correndo. Ou então diga algo como 'o que é isso, senhorita? Pelo que está me tomando?' É boa essa frase, não é? Não é frase de bichona? Ha ha!"

Belisário continuou olhando assustado para Joaquim, sem dizer palavra. Meneou a cabeça afirmativamente quando este sussurrou com voz dura em seus ouvidos a advertência final de que contava com ele.


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Assim que voltaram para a sala e Belisário novamente se postou ao lado do caixão, lentamente Graça se aproximou dele. Sentou-se no seu colo e começou a beijar-lhe o pescoço. Todos no recinto, atônitos, observavam a cena. Belisário gaguejou: "A se-senhorita está louca... Estamos no velório de minha mãe..."


"Eu quero você esta noite. Pouco me importa a puta de tua mãe. Vem, vou te dar meu sexo, depois vou te dar meu ânus, vou te lamber todinho, vamos subir para o quarto que eu vou fazer você esquecer tudo e te dar muito prazer". Graça, enquanto sussurrava essas palavras, pensava em Joaquim, lembrando-se do corpo dele, de seu pênis rijo que ela segurou com as duas mãos, de como ele a obrigou a aplicar-lhe sexo oral, agarrando sua cabeça com força, puxando os seus cabelos. Ela queria passar de novo por aquilo, beber novamente o sêmen de Joaquim, fingindo-se horrorizada quando ele mais uma vez a obrigasse a isso. Mas Joaquim, nos últimos tempos, só a esnobava. Só saía com mulheres mais velhas, geralmente abastadas, que o sustentavam sem que seus pais soubessem. Imaginando Joaquim, Graça enfiou a língua no ouvido de Belisário, que tremia e quase chorava. Foi puxada por Lena, que disse em voz alta:


"Estás louca? O que está fazendo?", e puxando Belisário pelo braço: "Venha, ela está fora de si. Vou levá-lo para um lugar onde possa recompor-se". Soninha e Joaquim, que olhavam a cena sorrindo discretamente, entreolharam-se e seguiram os dois.


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Lena levou Belisário pelo braço até o quarto, como se faz com uma criança. Lá chegando, antes de abrir a porta e entrar, tirou toda a roupa. Belisário, em estado de choque, deu um passo atrás. Lena pegou sua mão e conduziu-a até seu seio esquerdo.

"Pega. Isso. Você gosta? Não é macio?"

Belisário retirou a mão com força e desceu as escadas correndo. Lena atrás dele. Cruzaram na volta com Joaquim e Soninha, que subiam as escadas para ir ao encontro deles. Surgiram na sala, Lena nua em pêlo. Aquele escândalo insólito gerou um grande burburinho de vozes, gritos e interjeições de espanto. Uma senhora desmaiou com a cena. Outras começaram a deixar a sala. Ficaram apenas Belisário, Lena, Graça, Soninha e Joaquim, e alguns homens soturnos, que observavam a tudo com curiosidade interior.


Lena avançou na direção de Belisário, que recuou até bater de encontro ao caixão da mãe. Acuado, nada pôde fazer quando a mulher começou a abrir-lhe os botões do paletó, depois a camisa. Graça chegou por trás dele, despindo-se também, e beijando-lhe o pescoço, a orelha, e finalmente a boca, com sofreguidão, fazendo-lhe engolir o beijo como ele outrora engolira a fumaça do charuto. Joaquim observava a cena com expressão libertina e, ao olhar para o lado, viu que a irmã estava sentada próxima, com um dos seios à mostra e a mão por baixo da saia, tocando-se. Disse-lhe: "Verás agora a revelação de que lhe preveni. Ele vai rejeitar as moças, vai mostrar a plenitude de sua veadagem. Veja". E para Belisário: "Meu camaradinha, acabe logo com isso. Diga logo para as damas que você não gosta do que elas tem para lhe oferecer".


Belisário então desvincilhou-se das duas, que já tinham lhe tirado o paletó, a gravata, as calças e a camisa, deixando-lhe só de cuecas. Virou-se para Joaquim, abaixou a cueca, balançou na sua frente seu enorme pau totalmente duro e disse, com ar raivoso:

"Te parece, idiota, que eu não gosto disso? Você sabe por quanto tempo eu esperei essa putaria?"

Dirigiu-se em seguida para Graça, que posicionou de costas para ele, com as mãos apoiadas na alça do caixão de dona Gertrudes, e penetrou-lhe com vontade, dizendo em voz alta os maiores absurdos, apertando-lhe as coxas, arranhando-lhe as costas e dando tapas sonoros nas nádegas. Enquanto comia esta, pediu para Lena lhe lamber o cu, o que ela fez prontamente. Soninha vendo tudo masturbou-se com ainda mais vontade, gritando os nomes mais sujos, sentindo-se observada pelo irmão e pelos homens soturnos que tinham permanecido na casa. A essa altura, tanto Joaquim quanto os desconhecidos já se masturbavam calmamente, gozando aquela situação grotesca. Belisário permanecia muito sério e agora mudo. Após fazer Graça gozar, se encarregou de comer Lena, também apoiada no caixão, mas de frente para ele, com as pernas bem abertas.


Graça foi ao encontro de Joaquim e, de joelhos na frente dele, lambeu-lhe demoradamente o pau. Os homens soturnos rodearam Soninha e se masturbaram ao redor dela, vendo-a masturbando-se. Soninha gritava, Lena gritava, Graça - agora sentindo-se feliz enquanto era enrabada por Joaquim - gritava e apenas Belisário e os homens soturnos permaneciam sérios e mudos. Belisário, sentindo-se aproximar o êxtase do primeiro desabrochar de sua vida, por tanto tempo aguardado em segredo, agarrou Lena pelos cabelos e colocou-a de joelhos em sua frente. Lambuzou-a toda com seu jorro. Ao mesmo tempo, Soninha teve o corpo marcado pelo jorro dos homens soturnos, e seu irmão Joaquim despejava sêmen no abdôme de Graça, após ela ter implorado para recebê-lo na boca. Todos ainda arfavam e mudos imaginavam o que se passava na cabeça de cada um, quando ouviram um barulho no caixão, que se movimentava, seguido de um grito:

"Belisário. O que significa isso?"

Soninha, Graça, Lena e Joaquim gritaram de horror ao ver a velha Gertrudes levantando-se do caixão. Os homens soturnos, pela primeira vez até então, sorriram. Belisário disse: "Mamãe, eu posso explicar". Apanhou um candelabro ao alcance de sua mão e bateu-o com força na cabeça da ressurreta, que caiu desacordada no caixão.

"Velha do caralho. Que vá pro inferno", disse dando um tapinha na nádega de Lena.

O velório varou a madrugada e gemidos profundos quebraram o silêncio da noite e da morte.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Colhão de sobra

A minha vida inteira eu fui um cagão. Um bunda-mole. Uma ex-namorada costumava me dizer que eu “gosto das coisas amenas”. Bobagem. Eufemismo tolo pra me chamar de frouxo. Frouxo mesmo? Certamente. Mas é bobagem ficar aqui choramingando. Melhor eu me concentrar em narrar o dia derradeiro da minha vida, o dia em que explodi e resolvi mandar tudo pras picas. Eu estava numa puta má fase. Depois de três anos sendo ininterruptamente sacaneado pelo meu patrão, um sujeito com curso primário, que fala “menas” “vinhemos” e “pobrema”, eu fui para o escritório decidido a pedir as contas. Quer dizer, mais ou menos. Falei: Ou você me dá um aumento, ou eu saio. Tinha fé que o blefe ia dar certo. Que ele ia se sensibilizar com a minha condição deprimente, com o salário muito abaixo do piso que me pagava, com todos os anos de dedicação e bons serviços prestados. Ele olhou pra minha cara, colocou um sorrisinho irônico no canto da boca e disse: Você quem sabe. Levantou pra sair, mas antes anunciou: Contratei um novo vendedor. Tá aí fora. Explica pra ele como é o esquema. Uma voz interior me dizia que eu não tinha que explicar porra nenhuma, que nem da equipe de vendas eu era e que, além disso, eu tinha pedido demissão. Eu saí pelo corredor, enchi um copinho de plástico com água e bebi de um gole só. Expliquei pro cara, um chucro, como era o esquema. Porra.

Peguei um ônibus que lá pelos lados do Bom Retiro começou a lotar. Sentou-se ao meu lado uma mulher muito gorda. E muito feia. Se esticou toda na minha frente, abriu a janela, fez um bolota com o saquinho de alguma coisa que ela tinha acabado de comer e atirou pela janela. Depois sentou-se novamente e tirou um celular da bolsa. A mulher tinha cara de pobre, e era pobre, mas o celular dela era muito mais incrementado que o meu. Então ela colocou uma merda de música alta, um forró desgraçado que não me deixava ler o que eu estava tentando ler, e eu olhei em volta e percebi que era o único incomodado com a situação, que as pessoas no ônibus já não estavam nem aí. E a gorda desligava o celular e eu pensava que aquele tormento tinha terminado, mas aí ela ligava de novo, com a mesma música, e eu fiquei com vontade de dizer pra ela que ela era uma imbecil, uma inútil, que um genocídio para pessoas como ela e os conterrâneos dela não seria uma má solução, um monte de paraíbas safados que quando não são analfabetos (não deviam deixar analfabetos comprarem telefones celulares), tem preguiça mental demais para ler aquela merda de aviso, colado no vidro do lado da cadeira do cobrador, no qual estão os dizeres “Proibido o uso de aparelhos sonoros no interior deste veículo, lei tal ano tal, etecetera”, que ela devia fazer um favor aos usuários do transporte coletivo e começar a andar somente a pé, mas isso apenas depois de fazer um curso para pedestre. E que enfiasse o celular no cu. Pensei em dizer tudo isso, mas me limitei a ficar abrindo e fechando o livro e fazendo cara feia, pra ver se a maquinista de trem fantasma se tocava. Ela notou minha irritação e riu. Acintosamente. Porra.

O dia estava uma merda mesmo, então resolvi não ir direto pra casa. Fui jogar bilhar no boteco. A dinheiro. Não há nada pior para embucetar de vez com o humor de alguém do que perder um jogo estúpido. Ainda mais quando há dinheiro envolvido. E principalmente quando você acha que estão te roubando. E eu sempre acho que estão me roubando. Na quinta partida seguida que perdi, perdi também a paciência. Joguei o taco na mesa e saí, o pessoal falando “mas, o que que é isso”, “volta aqui, porra” etecetera. Mas olhei pra trás e eles estavam rindo, um até mesmo chegou a dizer “é um ganso mesmo, vacilão da porra”. Porra.

Sinuca, carteado. Quanta perda de tempo. Sabia na verdade qual era o meu problema, no fundo. Falta de sexo. Já ia mais de um ano que eu não transava. Mulher nenhuma queria dar pra mim, por causa da minha feiúra – eu sou feio e atarracado - e a secura já ia alta. Pra completar, eu dividia apartamento com mais dois caras que todos os dias levavam algum brotinho pra comer lá, e eu ouvia os gemidos, os gritos e sabia que os putos atiçavam as piranhas pra gritarem e gemerem alto só pra me sacanear. E quase todo dia era assim, e por isso mesmo eu já não tinha tesão nenhum de ir pra casa, tocar aquela punheta murcha no banho, pensando na vizinha gostosa ou na secretária do chefe que só me provocava mas tirava o corpo fora na hora H. Eu estava fodido, mas tão fodido, que nem dinheiro pra pagar uma puta eu tinha. E a tendência era só piorar, eu ficava excitado só de ver a lingerie aparecendo no desenho da menina da fachada da Casa das Calcinhas.

Então não sei como surgiu e se instalou na minha cabeça a ideia fixa que mudou a minha vida. Só sei que tomei um ônibus e fui para perto da casa da minha ex-namorada. Uma que tinha me dado o pé na bunda fazia mais de dois anos, não sem antes me cornear, sacanear e esculachar, me dizendo um monte de groselhas. Entre elas, a de que eu era um bunda-mole. (Tenho a impressão de que já a citei aqui). Estranho, fiquei na rua escura espreitando a casa dela, eu não sabia o que estava fazendo. Descobri quando ela chegou. Que delícia, eu estava com saudades daquele corpinho, dos gemidos dela, das loucuras que a gente fazia na cama. A verdade é que, sem ela, a minha vida tava mesmo uma merda completa. Abordei-a, ela tomou um tremendo susto. Fui direto ao assunto, eu quero você, de novo. Ela respondeu que eu estava maluco. Maluco? Eu estava maluco, porra. Puxei-a pelo braço, puxei pelos cabelos, arrastei pra uma esquina deserta. Ela ficou sem reação, talvez estivesse paralisada de medo, mas podia ser também um tesão enrustido e inconfesso. Não ofereceu resistência, e eu a empurrei contra o muro, de costas para mim, e levantei sua saia, abaixei a calcinha, tudo com uma mão só, com a outra fui abrindo meu cinto, o zíper, baixando as calças. Estava fora de mim, e foi juntando todo aquele estresse, e a energia contida de anos levando desaforo pra casa, tomando no fiofó, vendo os outros se dando bem enquanto eu estava a nenhum. Botei o pau pra fora e, puta merda. Que desgraça. Estava mole. Mandei-a agachar e me chupar, e ela chupou a contragosto, durante intermináveis minutos, e meu pau continuava mole. Eu comecei a chorar de nervoso, ela olhou pra minha cara com nojo, disse que eu continuava um bunda-mole mesmo. Então fiquei puto. Senti um troço, um afluxo de sangue, meu rosto inteiro formigava, devia estar vermelho feito um pimentão e eu tremia como se estivesse tendo um ataque epilético. Ela ainda estava com meu pau na mão e vimos quando ele começou a crescer numa ereção contínua e interminável. Aquilo era uma loucura, e só na loucura ou num sonho psicodélico se justificaria o sorriso satânico que se instalou no rosto dela, a voz mole dizendo “hum, seu safado” e depois tomarmos um puta susto quando meu saco começou a inchar, inchar, inchar e ficar do tamanho de um limão. Comecei a urrar de dor, e fiquei meio verde feito o doutor Banner se transformando no Hulk, e os músculos do meu pescoço retesaram, meus dentes trincaram, minhas pupilas se dilataram e senti que ia desmaiar. Antes de apagar, deu tempo de ouvir um barulho seco como o de uma bexiga cheia de ar sendo estourada. E vi, ainda antes do sangue sair do meu corpo e eu ficar lívido, a minha pele cedendo, e meu testículo direito sendo expelido pra fora como a espoleta saindo de um revólver.
Agora estou no hospital, com o escroto enfaixado. Somente amanhã vou poder ver como ficou. Minha ex teve a bondade de recolher meu testículo direito e trazer para o reimplante. O esquerdo, segundo ela, ricocheteou no ar e caiu na rua. Ela não conseguiu localizar. Deve ter caído num bueiro. Porra.


Rafael Gimenez

sábado, 23 de janeiro de 2010

Cheiro de amor e de morte

Meu nome é Ubiracy, vulgo Bira. Trabalho no Instituto Médico Legal. Tem já mais de dez anos que trabalho como assistente dos legistas, engavetando e desengavetando cadáver, tá sabendo? Minhas narinas já se acostumaram com aquele cheiro ocre, agridoce, de maneira que nem diferencio mais o odor de um defunto ao aroma de uma torta de ameixa feita pela Larinha. Larinha é a minha mulher, tá sabendo? Quando conheci a Larinha, eu fiquei doido. Estava andando na rua e ela vinha no sentido oposto, olhei pra ela e ela olhou pra mim, mas eu sempre fui muito tímido com as mulheres e elas nunca me deram pelota porque eu não sou lá um sujeito muito bonito, tá sabendo? Mas quando a Larinha passou por mim, os cabelos lisos na altura dos ombros, olhos negros e brilhantes e um corpo que nem o melhor poeta saberia descrever, me deu uma coisa, tá sabendo? E eu fiz algo que nunca imaginara. Segurei a Larinha pelo braço, e ela fez uma expressão de espanto, imaginem, um crioulo enorme segurando ela pelo braço assim sem mais nem menos, e vi que ela ia gritar, eu precisava dizer alguma coisa, mas minha voz não saía, eu na época não era nem mesmo um verborrágico como sou hoje, e não lia poesia, e só queria saber das mulheres para foder, e pagava por sexo porque mulher alguma queria dar pra mim, e as que davam se assustavam com a minha jeba, sim, porque modéstia à parte eu sou um cara bem piçudo, tá sabendo? Mas aí fiz um esforço descomunal e enfim disse, com a voz gaguejando, “você é linda” e ela “o quê?” e eu repeti, desanimado, “você é linda”, e ela sorriu, e muito tempo depois me disse que ninguém tinha feito uma coisa assim por ela antes e que minha atitude foi romântica e corajosa. Larinha também é muito tímida, tá sabendo? Eu era apenas um chucro ignorante e semi-analfabeto quando comecei a sair todas as tardes com Larinha e ela me lia poemas de Lorca, Baudelaire, Neruda, Drummond, Bandeira e me fez ler romances e íamos às vezes ao cinema e ríamos de chorar vendo comédias e ela se assustava e me abraçava quando víamos filmes de suspense. Quando começamos a namorar, os pais dela foram contra. Os pais da Larinha são professores universitários, com mestrado e outras milongas, e não queriam me podar porque sou preto ou pobre, mas porque eu era ignorante e não fazia porra nenhuma da vida, a não ser jogar bilhar e um ou outro biscate que me possibilitasse arrumar dinheiro pras minhas apostas. Mas a Larinha me mudou, me arrumou o emprego no IML e depois me apoiou quando comecei a estudar enfermagem. Quebrei o nariz de um palhaço na vila porque ele tirou onda com a minha cara dizendo que enfermeiro é profissão de boiola, tá sabendo? Mas isso não interessa, vim aqui para falar de outra coisa, tá sabendo? Como eu disse, trabalho no IML todo dia limpando os defuntos que chegam. Um dia desses chegou de uma só vez dezessete presuntos de uma chacina no Capão e o Bira aqui estava lá fazendo seu trabalho quando pensou assim: “Porra, Bira, já faz mais de dez anos que você tá nessa vida de embalsamar presunto, tá sabendo?” e pensava que os putos dos médicos do IML nem olhavam pra minha cara quando passavam por mim no corredor de manhã, e minha vida estava cada dia mais maçante, eu já estava tão acostumado a ver cadáver, e tão acostumado com o cheiro deles, com o sangue coagulado, com as escoriações, a putrefação, os órgãos internos aparecendo e todas aquelas coisas, que podia até almoçar em cima de um finado que isso não alteraria em nada o meu apetite, tá sabendo? Mas eu não ligava para esses pensamentos, eu era feliz. Todo dia chegava em casa e a Larinha tinha feito alguma comida que eu gostava, e me falava sobre como tinha sido o dia dela e, sabendo que eu odiava falar de trabalho, nunca me perguntava como tinha sido o meu. E depois íamos pra cama e todo dia era aquela loucura, tá sabendo? O sexo que a gente fazia era coisa que devíamos cobrar entrada pro povo ver, era melhor que poesia, era arte pura, uma coisa que devia ser gravada e deixada como legado para as gerações futuras. Nesses mais de dez anos em que estava com ela e em que cuidava dos presuntos no IML, eu nunca tinha deixado de dar no coro nem um dia, fosse por cansaço, por doença ou por outro motivo qualquer, tá sabendo? Mas nesse dia em que chegaram os dezessete presuntos do Capão, tudo moleque novo, o mais velho tinha vinte e seis anos, o mais novo quinze, a maioria preto e pardo – mas tinha um japonês no meio, tá sabendo? – todos com o rosto tranqüilo, sem horror, sabendo que tinha se cumprido a sina deles e acabado a encheção de saco que é viver nesse mundo, nesse dia, sei lá, eu não consegui comer a Larinha. Ela tentou de tudo, mas meu pau, esse Hércules que é meu pau, não subiu de jeito nenhum, tá sabendo? Ficou uma minhocona mole, e a Larinha ficou balangando ele pra lá e pra cá, e rindo, e brincando com ele como se fosse uma boneca, e aquilo me irritou e eu pedi pra ela parar e me virei de lado. Ela perguntou “o que foi?” e eu respondi “nada” e ela perguntou se era algum problema no trabalho e eu disse pra ela “odeio falar de trabalho, você tá cansada de saber disso, tá sabendo?” e ela começou a chorar e eu fico com o cu na mão toda vez que a Larinha chora, tá sabendo? E fiz um carinho nela e pedi pra ela me ler um poema do Brecht e então ela leu e nós adormecemos. No outro dia eu não conseguia trabalhar e pela primeira vez tive nojo daqueles defuntos que chegavam, e náusea com o cheiro, um enjôo que só senti quando pisei naquela merda pela primeira vez mais de dez anos atrás, tá sabendo? Pra piorar, chegou o corpo de uma velha gorda, o corpo estava em péssimo estado, manchado de verde e roxo e aquilo foi me dando uma agonia e eu pensava nos dezessete defuntos do Capão, nos pretos e no japonês, e pensava no corpo da Larinha e em todas as sacanagens que fazíamos na cama, mas aquilo não me excitava nem me dava vontade nenhuma, e foi me dando vontade de chorar. Mas eu nunca chorei, tá sabendo? Então pensei “o que está acontecendo comigo?” e larguei o corpo da velha lá, e quando ia saindo percebi que não teve um puto pra fechar as pálpebras dela, e a velha estava me encarando com os olhos esbugalhados, e então eu, um sujeito que nunca tive medo nem de assombração, queimei o chão sem dar tempo nem pro pensamento me alcançar, tá sabendo? Cheguei em casa e a Larinha tava fazendo torta de ameixa, e eu disse “larga essa merda aí”, e puxei ela pro quarto e fiquei inteiramente nu e mandei ela tirar a roupa também, e a Larinha não estava entendendo nada, mas tirou o avental, depois tirou o shorts e a camiseta que estava vestindo, e ela estava de cabelos presos e aquilo me deu um princípio de ereção, e coloquei ela pra chupar meu pau e ela chupava e a ereção ia aumentando e eu não consegui conter um riso de alegria e botei ela de quatro pra comer o cuzinho dela, tá sabendo? Mas quando comecei os movimentos, lembrei dos defuntos e desesperado vi a ereção indo embora, e caí na cama suado e arrasado, a Larinha do lado sem coragem de dizer nada, e ficamos os dois muito tempo calados, até que eu disse “minha filha, vamos cuidar da vida, tá sabendo?” e fomos tomar banho.


E por isso que estou aqui hoje, falando com o senhor, vendo se o distinto pode me ajudar, tá sabendo? Foram mais de dez anos lidando com aqueles malditos defuntos, fazendo sempre o trabalho mais sujo e asqueroso, mas isso nunca afetou a minha virilidade, tá sabendo? Agora, por quê não consigo tirar da minha cabeça os dezessete defuntos do Capão, a velha gorda olhando pra mim com os olhos arregalados, o cachorro atropelado na rua, que virou uma pasta vermelha no chão, e o bebê encontrado no lixo, pretinho e com dois olhinhos que mais pareciam bolinhas de gude, com um rato preso no calcanhar? Por quê não consigo mais foder com a minha mulher? Por quê, doutor? Minha cabeça percorre o cemitério enorme, sem limite, onde jazem no alvor d’uma luz branca e terna os povos da História antiga e a da moderna. É Baudelaire, tá sabendo?

Por Rafael Gimenez

domingo, 3 de janeiro de 2010

A falecida

Quando Raimundo conheceu Shirley, caiu de amores imediatos por ela. Não era para menos: a morena tinha cabelos pretos, olhos escuros, um rabo fenomenal, seios pequenos que cabiam na palma da mão, como ele gostava. Viu-a dançando agarradinha com um sujeito no forró, o sujeito tinha cara de estar maconhado, ou qualquer coisa do tipo. Assim que terminou a música, puxou-a pelo braço. O outro quis protestar - “ei!” – mas já estavam do outro lado do salão. Raimundo disse “você só sai daqui comigo hoje” e, efetivamente, assim aconteceu. Namoraram e casaram-se, tudo em menos de um ano. Se durante o namoro Raimundo ainda ia com Shirley ao risca-faca, onde tomavam cerveja e dançavam, depois de casados se tornou um marido tremendamente opressor. Não deixava a mulher botar o pé pra fora, nem fofocar com vizinha – mexeriqueiras do cão! – nem ir ao supermercado sozinha. Deixava-a ir, sob mil recomendações, à casa da mãe, também no bairro, para onde telefonava de cinco em cinco minutos a fim de saber se ela estava lá. Tanta desconfiança, na cabeça de Raimundo, tinha procedência: a mulher não era flor que se cheirasse. Ele sabia. Na sua terra, vadia é pra se comer, mulher decente para se casar. Mas Raimundo não sabia explicar a ninguém o que o levara a quebrar aquele mandamento. Só sabia que a morena era um fenômeno. Deixava-o doido na cama, como nenhuma outra conseguiu. Logo na primeira noite, enquanto se despia para ele, passou a língua nos dentes – ela tinha todos os dentes – e disse coisas impublicáveis, que ele não ouvira nem nos lupanares que freqüentara desde garotinho. E um tesão inexplicável o queimava, e se sentia confuso. Comia vadias, sempre comera, mas tinha nojo delas. Usava-as e depois de terminado o ato, queria logo se ver livre delas, pagava o quarto, saía batido. Proibia as putas de falarem palavrão pra ele e uma vez agrediu uma que o chamou de filho-da-puta no auge da ação. E agora estava ali, Shirley de quatro em sua frente, gritando “me fode, filho da puta, enfia esse pauzão em mim”, e ele mandando ver, cada vez mais rápido, mais forte, mais brutal. “Me bate”, e ele batia. “Bate forte, porra”, e ele batia com vontade, marcando as nádegas da mulher. “Mais forte, mais forte, bate que nem homem”, e ele batia com toda a força, e sentia um vigor imenso, e em seguida caía desfalecido, o pênis melado e esfolado.

Era feliz com aquela mulher e acreditava que a colocaria nos eixos. Mas Shirley, evidentemente, não estava feliz. Mais do que o sexo, a luxúria para ela era se exibir. Gostava de sair na rua e sentir os homens a olhando, a comendo. Seu maior prazer, desde que começou a ganhar formas de mulher, era descobrir sempre uma maneira nova de desejo se apresentando diante dela e verificar que o grupo de homens que a devorava com os olhos era heterogêneo. Passava em frente ao convento de São Cristóvão e surpreendia, vez ou outra, um frade entortando o pescoço para contemplar sua partida. O frade se ruborizava e saía andando em passinhos apressados. Ela ia para casa e se masturbava, olhando-se no espelho, senhora de todos os desejos dos homens.

Era líquido e certo que um dia a bomba estouraria. E aconteceu no dia em que Raimundo, chegando mais cedo em casa, a pegou na cama com um biriteiro afamado da vila. Ele não teve cabeça pra pensar: partiu pra cima dos dois. O sujeito, rápido e ágil, pulou pela janela, sumiu na rua. Ela gritou, esperneou, quase desfaleceu quando viu o ódio nos olhos do marido. Chorou sentida, porque no fundo amava o corno. Mas era tarde. As mãos apertavam mais e mais seu pescoço, ela sentia a visão se escurecer e ir apagando aos poucos, como uma luz dimerizada. Morreu nos braços dele, que não tinha forças pra chorar nem pra fugir. Sua vida acabara. Tratou de dar sumiço no corpo.
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Dois anos depois, Raimundo estava novamente casado. Renilda, 24 anos, evangélica, casou com ele cabaço. A virtude personificada. Não gostava da rua, ficava apenas em casa, arrumando as coisas, cozinhando, vendo tevê à tarde. Raimundo jamais chegara a esquecer Shirley, mas convencera-se de que dera um passo em falso ao se casar com uma dissoluta. Uma mulherzinha sem-vergonha, dissimulada, traindo-o com um porqueira em sua própria cama. Fizera bem em esganá-la, era cabra macho. Pensava tudo isso tentando amenizar a consciência e desviar o foco de uma questão que era insuportavelmente incômoda: com Renilda, mal conseguia gozar. Ela deitava na cama, abria as pernas e mantinha no rosto uma expressão impassível, de quem estava ausente de tudo, como se não estivesse sentindo ou vivenciando coisa alguma. Não era incomum que, diante de tão mórbida passividade, Raimundo broxasse. Aquilo para ele era a morte. Nunca antes broxara em sua vida, nem com as putas que tanto desprezava. Tentou de tudo: gemada, catuaba, amendoim. Nada adiantava. Um dia, não sabendo mais a quem recorrer e já meio breaco, pediu conselho a um amigo na mesa de sinuca. O outro ouviu o relato da situação e disse: “Rapaz, tua mulher faz o que? Te chupa? Te dá o furico? Ou vocês ficam só no papai-e-mamãe?” e ele respondeu que Renilda é uma mulher séria, que com ela não rola essas sacanagens não e que é assim que deve ser. “Mas é isso, rapaz”, cravou o amigo, “por isso que tu broxa”. Rotina é o grande anti-afrodisíaco de um casamento, era a opinião do colega.

Ao chegar em casa, Raimundo encontrou a esposa na cama, dormindo, de camisola, ressonando quase imperceptível como era seu jeito de sonhar. Se aproximou devagarinho, ela estava deitada de lado. Empurrou seu corpo para o lado, até que ficasse de bruços, e levantou a camisola até a altura do ventre. Depois, lentamente, desceu a calcinha larga de algodão. Apalpou seu pênis, ainda não estava duro. Acariciou as nádegas da esposa, até que essa acordou sobressaltada: “Raimundo, o que você tá fazendo?”, argüiu assustada. E completou: “Bebeste de novo, foi? Que cheiro horrível de cachaça”. Raimundo desferiu-lhe uma bofetada, deitou-a na cama com a barriga pra baixo e disse “quem manda nessa merda sou eu”. Estava decidido a comer o cu da mulher e resolver de vez aquela brochura medonha que o atormentava desde a morte de Shirley. Mas ao tentar a penetração de pinto mole, o fiasco da empreitada era fato consumado. A esposa violada não tentou qualquer reação, apenas orava baixinho, pedindo perdão a Deus e que aquilo acabasse logo. Minutos depois, acabou. Vencido e arrasado, Raimundo caiu de lado na cama e chorou até dormir, cansado.

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Acordou surpreso quando sentiu a língua da mulher acariciando seu pênis, no meio da noite, assim sem mais. E logo que se deu conta do que estava acontecendo, antes que pudesse dizer qualquer coisa, sentiu o sangue fluindo todo para aquela região e seu pinto renascia, rubro e vivaz, na boca de Renilda. Quer dizer, ele sabia que era Renilda, pois somente ela estava ali, e era seu rosto e seu corpo. Mas parecia mesmo que era outra pessoa ali beijando seu caralho, cuspindo nele e dizendo, com a voz safada “que pauzão, olha como está duro”. Arrancou a camisola dela, colocou-a de quatro – Renilda nunca antes permitira o coito naquela posição – e aproveitou ao máximo aquela ereção que, agora ele sabia, só se findaria no gozo. Não acreditava no que estava acontecendo e sentiu sua espinha gelar quando Renilda lhe disse, olhando para trás e fitando seus olhos: “Me come com força, filho da puta. Mete tudo até o fim, vai”. No momento de gozar, teve a epifania: visualizou perfeitamente Shirley de quatro, sendo enrabada por ele e pedindo leite na boca. Atendeu o pedido, e era a boca de Shirley a que ele lambuzava com seu sêmen, contorcendo-se de prazer num êxtase que ele só conseguia fruir, já que havia abdicado de entender. Quando estava já caído de lado, saciado, olhou para Renilda e lá estava a mulher, o rosto com o olhar perdido além, uma expressão aparvalhada como se tivesse enlouquecido. Dormiu sem sequer se lavar e sonhou com Shirley lhe dizendo que aquela fora a despedida. Que agora ele se acostumasse a ser broxa, ele que já fora corno. E Shirley ria, ria, todos os dentes brilhando.
Rafael Gimenez

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Garotos de Aluguel

Meu nome é Samira. Sou uma bem-sucedida empresária do ramo de laticínios. Meus desafetos dizem que sou uma devoradora de homens, mas não é verdade. Considero-me apenas uma caçadora. Vislumbro um alvo para saciar minhas necessidades e não sossego enquanto não o conquisto. Querem ver? Vou exemplificar contando uma situação recente pela qual passei: estava em casa assistindo televisão – tevê a cabo, entenda-se, odeio noveletas, programinhas populares e demais bobagens da tevê aberta – quando vi um comercial de creme dental que me chamou a atenção. Jovens jogando frescobol num lago, dando mergulhos, exibindo o frescor e o vigor dos seus vinte e poucos anos. Um dos rapazes me deixou fascinada: era lindo, loiro, um corpo perfeito. Tive uma vontade incomensurável de ser possuída por ele de todas as maneiras possíveis. Daria para ele de quatro, e ele fruiria cada centímetro do meu corpo sólido e bem torneado. Devo acrescentar que, não obstante ter transposto a barreira dos quarenta anos, tenho o corpo modelado por exercícios físicos diários e me cuido muito bem, controlando minha alimentação de maneira espartana. Jamais darei as mulheres de minha idade, que freqüentam a academia, os salões e as festas da high society, o gostinho de poderem dizer, pelas minhas costas, como é do feitio dessas vagabundas, que minha bunda está enorme, que sou um pudim de celulite ou que as estrias já estão tomando conta de mim.


Creio que fujo do assunto. Bom, o fato é que fiquei loucamente obcecada pelo rapaz da publicidade de pasta de dentes e comecei a mexer os meus pauzinhos para mexer o pauzinho dele. Uma mulher da minha idade que não possuísse o meu dinheiro, inteligência e vitalidade, se entregaria a devaneios e sonhos eróticos com esse homem, acordando no meio da noite toda molhada, mas se contentando em apagar o fogo da xana com o marido ou namorados machistas e inexpressivos, sempre nessa velha e mesquinha frigidez que tira todo o sentido da vida. Mas eu não. Eu corro atrás do que quero. Chequei qual agência foi a responsável pela criação e telefonei, pedindo o contato do modelo. Aleguei, para não ficar malvista, que pretendia contratá-lo para uma campanha da minha empresa. Foi moleza. Forneceram-me o número de celular dele. Liguei para o Renato, esse era o nome dele. Utilizando ainda o pretexto de seleção de casting para uma campanha da minha empresa, marquei um almoço com ele para o dia seguinte. Creio que ele tenha entendido minhas segundas intenções, pois uma empresária de grande porte como eu possui um departamento de marketing eficiente para cuidar de assuntos desse tipo. Mas nos encontramos enfim num dos melhores restaurantes da cidade e tive uma pequena decepção: achei-o mais baixo do que na propaganda de tevê. De resto, era mesmo um deus: além dos dentes perfeitos, requisito básico para um modelo como ele, o corpo era todo sarado, os olhos brilhantes e invasivos e, ao contrário da maioria dos homens que trabalham nesse ramo, Renato possuía grande cultura, inteligência e educação. Fiquei, além de transtornada de tesão, encantada com aquele homem. Mas, como é do meu estilo, fui direta. Disse: “Quero ir para a cama com você”. Ele não se mostrou surpreso, nem ofendido, tampouco constrangido. Ficou calado por alguns instantes e me disse, finalmente: “Samira, peço desculpas, mas não faço michês. Além do mais, tenho uma noiva”. Eu retorqui que jamais tinha passado pela minha cabeça que ele fizesse michês – embora muitos deles façam – mas que eu tinha uma necessidade impetuosa de que ele transasse comigo. Para enfatizar isso, por baixo da mesa, rocei minha perna na dele. É importante dizer que eu, para ter sucesso na minha empreitada, vesti meu melhor e mais provocante vestido, com um decote generoso e curto o suficiente para que ele visse minhas lindas pernas. Estava também perfumada e, quando falava, colocava no tom de voz a ênfase necessária para deixar com que aquele homem entendesse claramente todas as minhas intenções. Ficamos um bom tempo conversando, eu ousando cada vez mais, sugerindo que saíssemos dali diretamente para um motel, que eu faria tudo que ele quisesse, sacanagens que o deixariam completamente louco, que ele usaria e abusaria de todo o meu corpo. A resistência dele ia sendo vencida, afinal de contas ele era um homem e não existe nem nunca existiu um homem que pudesse resistir a uma mulher como eu. Então eu joguei a cartada final: “Vem bobinho. Vou fazer com você tudo que sua noiva não faz”. Devo admitir que foi um golpe ousadíssimo de minha parte: se ele amasse muito a noiva, poderia se ofender e tudo iria por água abaixo. Mas minha perspicácia jamais me traiu. Ele me disse, entre envergonhado e excitado: “Nunca fiz sexo anal. Minha noiva não gosta e as minhas namoradas anteriores não permitiram”. Fiquei tão comovida que tive vontade de chorar. Com esforço para não deixar transparecer minha emoção, respondi: “Então vamos. Vou dar o meu cuzinho pra você. Bem gostoso”.


Quando chegamos ao motel, foi bom. Não foi nada de outro mundo e, pra falar a verdade, já tive fodas muito melhores. O rapaz era mesmo tímido e, para minha surpresa, inexperiente. Deixei que ele fizesse o que quisesse, e ele fez um esforço descomunal para não gozar com todas as coisas que eu fazia para ele. Primeiro chupei seu pau demoradamente e com esmero, utilizando toda a técnica que possuo, engolindo até o talo, passando a língua em toda a sua extensão, da glande até a base, e depois nos testículos. Quando ele estava no ponto, deitei com as pernas bem abertas e disse: “Vem”. Enquanto ele me fodia, falava sacanagenzinhas no ouvido dele, chamava-o de “meu garanhão”, de “fodedor” e de “meu homem”. Notei que ele ficava particularmente exaltado com essa última expressão, e comecei a usá-la mais. Depois de uns vinte minutos, variando as posições, dei para ele o que lhe prometi: meu ânus. Eu também tenho a técnica perfeita para a prática do sexo anal e, quando ficava nítido que ele iria ejacular, segurava um pouco os movimentos para prolongar seu prazer. Depois de menos de dez minutos comendo meu cu, ele não agüentou mais e sinalizou que iria gozar. Pedi que ele ejaculasse na minha boca. O sêmen dele era levemente adocicado, senti vontade de engolir, mas achei que era prêmio alto demais para um rapaz que me deu um grau médio de prazer.


Quando saímos do motel, perguntei onde ele queria que eu o deixasse e, no caminho, conversamos de forma descontraída sobre vários assuntos. Chegamos ao prédio dele, ele perguntou se eu não queria subir, eu respondi que não. Então Renato perguntou-me quando nos veríamos novamente. Respondi que nunca mais. Tive um rápido momento de ternura para com ele quando me perguntou por quê, se ele tinha feito algo que eu não gostara. Argumentei que não era nada daquilo, apenas não achava prudente que nos víssemos, eu sou uma mulher conhecida, recém-divorciada, e ele tem uma noiva. Foi apenas uma aventura, nada mais. Ele balançou a cabeça afirmativamente, beijou-me no rosto e desapareceu pela porta do edifício.


Voltando para casa, me senti estranha. Mais uma vez eu tive o que queria, da forma como queria. Venci mais um jogo, era uma mulher poderosa, capaz de conquistar quem e o que quisesse. Então por que não conseguia parar de pensar em Renato, tirá-lo da minha cabeça? Tomei um banho, jantei, e fiquei na cama assistindo tevê. Quando Renato apareceu, submerso naquelas águas puras, limpas e refrescantes, não consegui conter as lágrimas. O que diabos estava acontecendo comigo?


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O gosto de uma conquista é saboríssimo, porém efêmero. Uma vez conquistado um prêmio, você já quer outro. Colecionei, ao longo da vida, namorados de todos os tipos. De todas as classes sociais. Dos mais diferentes ramos de atividades. Para alguns, dei já no primeiro encontro. Outros, cozinhei em banho-maria, para deles tirar mais vantagens e maior proveito. Com a idade que tenho, com o vigor e determinação que carrego em mim, considero-me uma mulher única, capaz de ter tudo que quero, da forma que quero.


E tive, efetivamente, tudo o que quis até então. Mas faltava uma coisa. Fui, com o passar dos anos, cedendo a um desejo voraz, até que ele se tornasse uma obsessão. Eu queria... Não sei se serei compreendida, creio que serei até discriminada ao fazer essa confissão. Mas já há algum tempo, tenho tido uma vontade incontrolável de dar para o Zé Ramalho. Não posso mais ouvir aquela voz de trovão, rascante, dizendo “pague meu dinheiro e vista sua roupa” que fico todinha molhada. Compreendi que era necessário encontrar um meio de dar para ele, sem demora. E que isso naturalmente seria mais difícil do que foi com o rapaz da propaganda de pasta de dentes. Acionei meus contatos, pessoas influentes do meio artístico. Uma delas prometeu-me um encontro com o Zé. Tratava-se de Esther, amiga de longa data e proprietária de uma casa de shows. Encontrei-me com ela em seu escritório.


“Menina, me explica essa coisa do Zé Ramalho. O que você quer com ele?”
“Você promete que não vai ter um troço?”
“Diz logo”
“Quero dar para o Zé”.


Esther encarou-me com olhar divertido e apalermado, como se achasse que eu estava brincando. Enfatizei que era sério. Que eu vinha sonhando todas as noites com Zé Ramalho, imaginando-o roçando aquela barba no meu púbis, me dizendo as coisas mais sacanas e sugerindo-me as maiores loucuras, aventuras, viagens. Era sexo, era transcendência, psicodelia, musicalidade, tesão. Tudo misturado.


“Olha, já vi gostos estranhos, fantasias bizarras e fetiches não-convencionais. Aliás, na idade em que estamos e com a vida que levamos, nada mais nos surpreende. Mas, amiga, mesmo assim estou bege!”, me disse Esther, enquanto discava um número no aparelho de telefone.
“Pra quem você está ligando?”, perguntei um pouco incomodada.


Ela não respondeu. Minutos depois, alguém atendeu e ela disse:


“Zé, tudo bem? Tenho uma amiga aqui que é uma grande fã sua. Chama-se Samira. Ela gostaria de lhe falar.”


E a filha da puta me estendeu o fone. Gesticulei desesperada. De repente, toda a segurança que sempre tive me faltou. Porra, era o Zé Ramalho! O que eu iria dizer? O que iria fazer? Esther me sussurrou “vai boba, fala com ele”.


“Alô...”
“Alô, Samira. Como vai? Esther me disse que você é minha fã. Amanhã estarei por aí. Posso lhe pagar um almoço?”


Só consegui responder que sim. Não consegui dizer mais nada. Travei, minha boca ficou seca. Era o Zé Ramalho, era aquela voz inconfundível, aquele sotaque. E eu estaria frente a frente com ele no dia seguinte. A noite toda não pude dormir. Entre nervosa, ansiosa e excitada, só me acalmei depois de me masturbar. Ouvindo, na minha cabeça, Zé Ramalho cantando só para mim: “Eu vou te jogar num pano de guardar confetes...”


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Cheguei com antecedência ao restaurante no qual combinei me encontrar com o Zé e, para minha surpresa, ele já me esperava degustando um vinho. Quando me aproximei, ele me abraçou e comentou algo sobre a minha exuberante beleza. Um galanteador. Não sei se pelo vinho ou pelo carisma que emana dele, mas o fato é que eu já não estava mais apreensiva. Conversávamos sobre música, sobre sucesso, sobre dinheiro, sobre viagens. Ele era tudo que eu esperava dele e um pouco mais. Contou-me que tinha alguns shows programados na cidade no próximo mês, disse que eu seria sua convidada de honra. E então começou a cantar sua música mais recente. Não pude me conter: lágrimas caíam de meus olhos aos borbotões. Ele se assustou e, todo solícito, estendeu-me um lenço – que eu guardaria por toda a vida – e perguntou-me o que havia. Contei-lhe tudo: que era apaixonada por ele – uma mentira calculada para chegar logo ao meu objetivo, que era dar para ele – e que desde criança sonhava com aquele dia. Pagamos a conta e fomos para o seu apartamento. Ele serviu-nos mais uma dose de vinho, colocou no toca-discos um vinil de Cole Porter.


“Então, minha pequena, me diga o que você quer de mim”, me disse, olhando nos olhos.


Pedi que ele me chamasse de “baby”, e ele cantarolou:


“Baby, baby, baby... uou ô ô ô ô…”


Fiquei alucinada. Pulei sobre ele, enlacei minhas pernas em sua cintura.


Quanto tempo falta para lhe esquecer
Quanto vale um homem para amar você?



Zé é, devo dizer, muito bom de cama. Nenhum homem me levou a um nível tão místico no sexo quanto ele. Não sei se era o homem real de carne e osso que ali estava ou se o mito que em torno dele se construiu que me levaram àquela loucura toda. E, evidentemente, o pinto dele era enorme. Fizemos, repetimos, conversamos, repetimos novamente, fumamos, demos outra. Depois eu queria mais, mais ele disse que não seria capaz nem com pílula azul.


“A idade é uma praga, meu amor”, me disse.


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No dia seguinte, eu estava nas nuvens. Sentia-me a mais poderosa e amada das mulheres da face da Terra. Era como um garotinho que depois de encher um álbum de figurinhas todo, tirava a última que faltava, mais brilhante, especial e premiada. Minha figurinha era o Zé Ramalho. Eu tinha dado para o Zé Ramalho. Estava em casa, rememorando tudo o que havia se passado, quando Esther me ligou:


“E então, amiga? Como foi com o Zé?”
“Ma-ra-vi-lho-so, Esther! Que homem perfeito! Tive uma noite inesquecível!”
“Hum, que bom. Mas você não notou nada de diferente?”, me disse Esther, entre risos.
“Como assim?”, perguntei já antevendo a desgracenta revelação que se seguiria.
“Samira... Eu te sacaneei. Aquele não é o Zé Ramalho. É o Duda Ramalho, o maior sósia do Zé Ramalho no Brasil. O verdadeiro Zé tá numa turnê em Portugal! Ha ha ha. Não acredito que você caiu...”


Desliguei o telefone na cara da cretina. Tomei um porre de Prozac, só acordei no dia seguinte. Filha da puta, tomara que morra. Que morra!

sábado, 5 de dezembro de 2009

Corinthians

Por mais que o pai tentasse focá-lo em outras coisas, só pensava em futebol. De pequeno colecionava figurinhas, tinha pôsteres no quarto do Marcelinho, Neto, Tupãzinho, Biro-Biro... Ia a todos os jogos do Corinthians, mas chegara aos 21 anos sem uma namorada que fosse. O pai era do tipo machão e temia que o filho fosse veado. Resolveu fazer o teste.

Calhou de chegar à casa Julieta, uma prima de 16 anos, vinda do interior. Malicioso, Oduvaldo viu que ela tinha grande potencial para a sacanagem e pensou: “Eis aí uma grande chance do Junior perder o cabaço”. Mas Junior, como sempre, só queria saber de uma coisa: Coringão. Mal olhava para a prima e o pensamento estava absorto no campeonato paulista, que chegava aos seus estertores. Domingo, o Palmeiras. O empate é nosso, a taça é nossa, pensava. Julieta, que por ele se interessou logo de cara, provocava. Usava roupas sumárias, aproveitando o mote da menina ingênua vinda da roça. Oduvaldo tentava compor climas, saía com a mulher, deixava os dois sozinhos. À volta, perguntava marotamente: “E então, minha sobrinha? O que vocês aprontaram?”. Fazia cara de choro quando ela dizia que nada, que Junior saíra para comprar ingresso com os amigos da Camisa 12, facção local.

Quando a esperança já estava perdida, aconteceu. Os pais saíram de casa e eles novamente ficaram sozinhos. Era o domingo da final. Julieta, para agradar, vestiu uma camisa do Corinthians do primo, que ficou larga nela. Por baixo, apenas calcinha. Suas pernas brancas e lisas, aparecendo sob o manto sagrado alvinegro, enfim pareceram despertar alguma reação no corintiano. Olhou-a profundamente, fitando longamente os seios, que na ansiedade da prima subiam e desciam num louco resfolegar, o distintivo do clube se movimentando e, enfim... Não mais puderam conter-se. Enquanto Marcelinho aproveitava uma bola que sobrou na área para fazer 1x0, ele a agarrou. Beijaram-se loucamente, avidamente. Ela ia tirar a camisa, ele pediu: “Não. Não tira.” Ela montou em cima dele, ele tirou-lhe a calcinha. Começou a comê-la, mas sentiu, desesperado, que a excitação ia diminuindo-lhe. Ela fingia não perceber, continuava os movimentos, torcendo para que o primo se recuperasse. Mas era um esforço vão. Um gol do Palmeiras, acontecendo naquele momento, terminou com tudo. Broxou. Ela procurou consolá-lo, enquanto lágrimas sinceras desciam por suas faces. “É assim mesmo, meu amor. Todos ficam nervosos na primeira vez”. Como era decidida, não desistiu. Esperou alguns minutos para que ele se recuperasse e voltou à carga. Agarrou seu pênis com as duas mãos e começou a movimentá-lo, ritmadamente. Tinha muita técnica e seu rostinho inocente não denunciava a vasta experiência que tinha atrás de cercas, pomares e igrejas na sua cidade natal. Depois de algum tempo de esforço inútil, viu que os olhos dele estavam cravados na TV, apreensivos. Veio o segundo gol do Palmeiras, a virada. Passou um infindável tempo fazendo de tudo, gastando seu repertório de sacanagens e habilidades manuais e orais. Mas nada, destruído, ele encarava o televisor. Quando Julieta ia agarrar o controle remoto e desligá-lo, uma bola de Ricardinho chegou para que Edílson empurrasse para as redes. Gol. Ele gritou, pulou, a abraçou. E, ato reflexo, pulou pra trás. Estava de pinto duro. Inexplicável, mas ela não perdeu muito tempo tentando entender. Empurrou-o para o sofá e subiu nele de novo. Depois, trocaram de posição. E foram assim, dessa vez sem parar, até que ele gozasse. Gozou no exato momento em que o Capetinha Edílson fez as famosas embaixadinhas e o jogo acabasse em pancadaria e título para o Corinthians. O êxtase era total. Era um homem.


Fato é que essa experiência, com todos os seus elementos, forjou sua rotina sexual. Passou a preferir, para transar, os dias de jogos do Corinthians. As parceiras estranhavam, no motel, que a TV ficasse ligada no futebol. Algumas não agüentaram mesmo a esquisitice e se mandaram. Mas ele seguiu assim durante algum tempo, sem pensar em se tratar e sem contar o fato para ninguém.


Em 2007, começou a namorar Regina. Uma mulher que tinha todas as qualidades, exceto uma: era palmeirense. No início, continuou com sua odisséia sexual: levou-a para motéis e transavam assistindo aos jogos. Explicou-a que só conseguia gozar assim, e ela pareceu entender. Mas a situação se complicou durante o campeonato brasileiro. Cada derrota do Corinthians significava para ele um mau desempenho sexual. A cada gol tomado pelo goleiro Felipe, correspondia uma broxada. A cada gol perdido por Lulinha, Finazzi ou Clodoaldo, outras. A situação não podia ser mais patética. Regina se esforçava, tentava criar fantasias, dizia-lhe: “Vem, me fode. Me fode como você gostaria de foder o Palmeiras”. Ele se animava, mas um segundo depois alguém cruzava bola na área do Corinthians, Betão e Zelão paravam pedindo impedimento, vinha o gol e seu pênis caía, como o Felipe dentro do gol.


Não podia terminar de outro jeito: no dia em que o Corinthians caiu pra Série B, como desgraça pouca é bobagem, Regina lhe abandonou. Ele deixou-se ficar, infeliz, deitado na cama. E pensava consigo mesmo: “Se não tivessem suspendido o Finazzi...”