sábado, 19 de junho de 2010

Pega no drops do tio!

Dedicado ao amigo André Diniz.

Oliveira senta-se à mesa, acende um cigarro, está louco para que aconteça uma merda que o tire dali. Negócio é sair em diligência, nem que seja pra recolher presunto de chacina. Nessa altura da vida, a adrenalina já se tornou costume e o tédio é o pior inimigo. Entra Alencar:


“Oliveira, você foi designado para participar da Operação Homem do Saco. Os federais vão dar apoio. Vamos sair em cinco minutos!”


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A Operação Homem do Saco é a maior já montada no estado para o combate à pedofilia. Conhecida informalmente também pelos nomes de “Operação Michael Jackson” e “Pega no drops do tio”. Dezenas de suspeitos investigados, algumas prisões programadas. Nada muito espetacular, apenas uma resposta à sociedade. “A pedofilia é a grande praga desse século”, diz Alencar. “Já existia antes, mas as pessoas só ficam chocadas com isso agora. Lembra do caso do pedagogo?”


Oliveira se lembrava. A polícia recebeu denúncia, prendeu o responsável por um educandário, devassou a vida do homem, exposição pública, humilhação, vergonha. Depois, descobriram, era inocente. Tarde demais. Com a vida destruída, deu um tiro nos cornos.


“Lembro. Qual é o procedimento hoje?”


“Estamos indo nos encontrar com um informante. Codinome Garotinho. Na verdade, ele estará envolvido na operação. Tentou entrar pra corporação, mas não tinha altura suficiente. Tem quase trinta anos, aparenta doze”.


“Siga”.


“Se passando por garoto de doze anos, marcou encontro com um sujeito conhecido como Raul Gil. Golpista. Diz que trabalha como olheiro pro apresentador homônimo, seduz os pais com proposta de fama rápida pros guris, leva os meninos pra casa, papa eles”.


“Compreendido. Siga”.


“Garotinho quer uma chance no programa, por isso aceitou o encontro. Vai dizer pro Raul Gil que é emancipado”.


“O cara não vai cair”.


“Vai cair. É deficiente mental. Acredita mesmo que é empresário de talentos”.


“Siga”.


“Quando o Garotinho estiver na casa com o pedófilo, estouramos e damos o flagrante. Esse elemento é suspeito de mais de trinta crimes”.


“Não entendo uma coisa. Se ele é deficiente mental e já papou mais de trinta meninos, como não pegaram o cara antes? Não devia estar já num sanatório?”


“É protegido de um figurão. O cara sempre tira ele. Só fazendo esse esporro vamos conseguir engaiolar o cara”.


“Garotinho vai estar armado?”


“Vai. Uma 9 mm. Mas a gente não vai esperar ele usar. Há um sinal combinado. No sinal, a gente entra e faz o serviço. Tudo tranqüilo, a baba do boi”.


“Baba do boi”, pensou Oliveira. “Sempre que é baba do boi, dá merda”.

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À paisana, do lado de fora do restaurante, Oliveira fuma um cigarro. No carro, está Alencar. Mais dois veículos nas proximidades, com policiais paisanos. Dentro do restaurante, numa mesa próxima a do suspeito, mais um policial. O tempo demora a passar. “O tédio é o pior inimigo”, lembra Oliveira. Começa a divagar. O corpo de Laura, alvo, branquíssima brancura. Ela tira a blusa, olhando nos seus olhos, passando a língua nos lábios. Mexe lentamente os quadris, sua cintura de cobra coral rastejante, esguia. “Larga essa vida e vem viver comigo”, pedia. Laura não dava atenção, “vem meu policial gostoso, pega a tua putinha de jeito”. O pau de Oliveira fica ereto dentro da calça, ele sente repulsa. Nunca se distraiu numa operação. Além do mais, Laura estava fodendo com um colega do departamento. Vadia”.


Vê o sinal irritado de Alencar, olha para a entrada do restaurante. Garotinho vai saindo, seguido por Raul Gil. Disfarçadamente anda na direção do carro, entra. Raul Gil e Garotinho entram num carro, saem.


“Não vamos seguir, pra não dar brecha. O endereço do puto é conhecido, já tem gente nossa lá. Vou pegar outro caminho”.

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Recebem uma mensagem de rádio:

“Alencar, o suspeito está desconfiado. Parou o carro num posto a duzentos metros do local do restaurante. Desceu do veículo, ficou olhando ao redor. Depois saiu com o veículo retomando a rota. Por enquanto, segue a rota pro local de domicílio. Estamos no encalço. Entendido?”


“Soares, mudança na operação. Sai daí. Não quero mais ninguém seguindo o cara. Estou a dez minutos do domicílio dele, tenho certeza que ele vai pra lá. Manda nosso pessoal sair de lá e ficar na rua transversal. Não quero ninguém seguindo o veículo. Repito: não sigam o veículo. Entendido?”


“Positivo, Alencar”.


“Alencar, isso tá esquisito”, Oliveira.


“O cara vai pra casa dele, e a gente pega ele lá. Tudo dentro do plano”.

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Cortando caminho, chegam antes do suspeito e estacionam próximos à casa. A casa é um barracão com quintal, numa rua escura. É noite.


“Porra, é aqui que o cara mora? Que merda, hein?”


“A fachada do sujeito só vai até o carro e o cartão de visitas.”


“E o tal figurão, que protege o elemento?”


“Tá pouco se fodendo. Devia favores pro cara, deu o carro. Dá uma grana mensal, que o puto gasta nos almoços e jantares com os pais dos moleques. Tira ele da cana sempre que o cara vacila, porque tem o rabo preso e sabe que o papa-anjo pode dar com a língua nos dentes”.


“Incrível como é fácil enganar otário”, pensa Oliveira. “No entanto, eu seria um bom pai, mas nunca botei filho no mundo”. Pensa novamente em Laura. Laura é uma puta, mas ele queria ter um filho com ela. Alencar corta suas elucubrações:


“Caralho... Estão lá tem quinze minutos, nada do sinal”.


“A baba do boi, né? Filho da puta”, pensa Oliveira. “Segura a onda”, diz em voz alta.


“Vai tomar no cu, Oliveira. Segura a onda o caralho!”


Uma tensão começa a surgir entre os dois, mas logo é cortada por outro carro que se aproxima. Oliveira abre a porta lentamente e se esgueira para fora da viatura.


“Oliveira!”, sussurra Alencar. “Volta, porra!”


Oliveira segue se esgueirando, engatinha e se oculta na sombra de um muro. Está próximo do carro que chegou. Dentro dele, um casal. Consegue ouvir seus sussurros. Sente a presença de alguém, é Alencar atrás dele:


“Filho da puta!”


Oliveira faz um sinal com as mãos, mandando Alencar se calar. Os dois observam o carro estacionado. Os sussurros aumentam. Veem claramente: ele, um homem jovem, vinte anos no máximo. Ela, uma mulata. Estão pegando fogo. A mulher já está sem a blusa, tem seios volumosos. Palavras obscenas facilmente são compreendidas pelos policiais. Ambos se esquecem, por alguns minutos, do que foram fazer ali.

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Garotinho se debate, tentando escapar das garras de Raul Gil. Este é meio mulato, forte, enorme, e o subjuga com facilidade. Com os joelhos, segura as pernas de Garotinho no chão. Prensa seu corpo contra o dele, se esfrega. “O tio não vai te machucar, meu menino”. Garotinho se revolve e urra. “Você vai ser uma estrela, menino”. Garotinho sente a enorme pica de Raul Gil penetrando seu ânus, e uma dor lancinante quase o faz desmaiar. Quer gritar, mas sente o vômito lhe tomando conta da garganta e subindo pra boca. “Ah, ah ah, meu menino”, Raul Gil repete, arfante.

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O casal prende a atenção dos policiais, até que ouvem tiros. Correm, cercam a casa. Alencar arromba a porta, se assusta com o que vê: Raul Gil crivado de balas, Garotinho sentado, nu, com o rosto entre os joelhos, mais garotinho do que nunca. Ergue a cabeça, vê os policiais:

“Seus filhos da puta! Onde vocês estavam, porra? O cara comeu meu cu! O cara comeu meu cu! O cara comeu meu cuuuuuuuuuuu, porraaaaaaaaaaaaaa!”


Oliveira se aproxima, dá um tapa no rosto de Garotinho, que volta a si. Silêncio durante alguns segundos. Depois murmura, choroso: “o cara comeu meu cu...”


“A baba do boi”, pensa Oliveira.

“Minhas sentidas desculpas, Garoto. Você passou o acusado, mas pega nada pra ti. Vai nessa que a gente limpa a barra”, disse Alencar. Garotinho o olhou com ódio:


“É o mínimo, né? O cara comeu meu cu”.


“Vira o disco, porra”.

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Oliveira chega em casa, molha o rosto, lembra-se do casal fazendo sexo na rua escura e do pobre Garotinho chorando depois da curra. “Chega dessa merda”, pensa. “Amanhã peço baixa”. Decide procurar Laura, tirá-la da vida, ter um filho com ela. Dorme com o 22 na mão esquerda, desamparado na poltrona. Sonha com Laura e sua branquíssima brancura.


Por Rafael Gimenez.

sábado, 12 de junho de 2010

Dois em Um

Só de pensar que conheci o Lucas em um chat, mesmo eu não sendo adepta a entrar nessas coisas, me faz acreditar cada dia mais que é coisa do destino. Entediada e sem dinheiro, num fim de semana chuvoso, e lá estava ele com o Nick “grudado em você”. Começamos a conversar sobre futilidades e vimos que tínhamos muita coisa em comum.
Faz mais de seis meses que nos falamos, seja por MSN, Orkut, SMS e raras vezes por telefone. O ruim de falar com ele por telefone é que ele tem um irmão muito, mas muito mala que fica gritando ao fundo. Aliás, não entendo bem essa relação dele com o irmão. Parece-me que eles são muito unidos, são gêmeos, mas o irmão é completamente diferente. Se chama Matheus. Um cara excêntrico, pelo que Lucas diz, mas ele não fala mal diretamente. Deixa as coisas um meio subentendidas.
Lucas é doce, atencioso, gosta de literatura, cinema e diz coisas coesas. Só é muito tímido. Sabe, em seis meses de conversa ele nunca me chamou pra sair. Eu tive que insistir muito para que a gente se conhecesse. E até hoje ele me mandou uma única foto, 3x4. Ele é lindo. Nunca cobrei uma foto de corpo inteiro, mas acho que já estou apaixonada e nada fará eu deixar de gostar dele, mesmo que ele tenha uma barriga enorme, ou pés chatos, ou talvez não tenha uma das pernas.Enfim, acho que encontrei minha cara metade.

- Eu conheço essa história de cabo a rabo! Tome cuidado, Luana. Você sabe muito bem que, hoje em dia, os loucos estão por ai na internet, se fazendo de bonzinhos. São lobos em pele de cordeiro. Ontem mesmo passou no jornal o caso da moça que foi conhecer o namorado virtual de 3 anos, três anos de namoro virtual, imagine. E ele matou a coitada estrangulada, cortou os pedaços com um canivete e colocou dentro de um saco de dormir, ainda mandou para os pais pelo correio.
- Credo e cruz, Cris. Deus é mais!
- Sério, tome muito cuidado com essas coisas. Além disso, tem aquela conversa do irmão dele, que é estranho... Aliás, o irmão dele vai?
- Não tive coragem de perguntar, Cris. Pelo que ele me disse, eu acho que sim. Eles são muito unidos mesmo. Aquela estória lá que o irmão dele freqüenta orgias e tem práticas sexuais incomuns, não sei viu, me deixou com a pulga atrás da orelha. Apesar do Lucas abominar essas coisas que o irmão dele faz.
- Então Lu. Vai que são dois maníacos sexuais. Quer que eu vá junto?
- Não Cris, obrigada. Acho que é um momento meu. Nunca estive tão apaixonada. E se o irmão dele não for, melhor pra gente né? Eu tiro aquela timidez em cinco minutos.
- É nem adianta eu ir, o irmão dele é gay, né?
- Bissexual, Cris.
- Mas dá a bunda. Logo, é viado.
- Cris... que coisa! Ele me contou que o irmão dele gosta sim de dar a bunda, mas isso num ménage a trois. Ou seja, o irmão dele também come.
- E se a gente chamasse os dois pra uma festinha?
- Não começa, Cris. Você sabe muito bem que a gente faz festinha sempre, mas não com meu príncipe. Você vai ser sempre a minha gostosa. Sempre. Mas ele pode ser o homem da minha vida, o pai dos meus filhos.
- Então vem aqui um pouquinho pra sua gostosa, seu príncipe nem vai perceber. Tá cheirosa gatinha, to ficando com ciúme.
- Só um pouquinho vai. E lambe tudo porque daqui cinco minutos eu to saindo.


***


- Tchau princesa, qualquer coisa me ligue.
Não sei ao certo o que acontece, mas estou realmente apaixonada. Se fosse só sexo eu ficaria com a Cris. Moramos juntas há três anos, desde que vim pra esta cidade e ela é melhor do que muito homem. Mas o Lucas é diferente e, além disso, a gente tem que ter um namorado pra apresentar a família.
Estou tão ansiosa que cheguei uma hora antes do combinado.
- Cris, cheguei no shopping. Liguei pro Lucas e o mala do irmão dele tava falando, acho que vem junto.
- Quer que eu vá ai, Lu?
- Não amiga. Vai que o irmão dele se toca e sai né? Mas poxa, ele disse que era muito unido ao irmão, não pensei que fosse tanto.
- Vai ver rola um incesto ali.
- Cris...
- Tá bom, nem falo nada. Bom encontro pra você.
- Acho que são eles vindo ali, beijinho.


***

- Oi.
- Ois.
- Então Lu, tudo bem com você?
- Não. Quer dizer, sim. Quer dizer, não sei.
- Esse é meu irmão, Matheus.
- Então essa é a gostosa? Prazer, Matheus seu criado.
- Matheus, cale a boca.
- Olha Lucas, acho melhor a gente conversar outro dia. Hoje não estou muito bem, não sei ao certo.
- Desculpe Lu. É sempre assim. Por isso não gosto de conhecer as pessoas.
- Entendo.
- Entende porra nenhuma! Tá ai toda assustada com a gente. É mais uma vaca.
- Matheus, cale a boca.
- Não Lucas, essas putinhas são todas iguais. Querem dar pra você e ficam todas assustada, só porque somos siameses, porra!
- Olha Lucas, eu vou embora. A gente se fala outro dia.
- Lu, espere. Eu te amo.
- Ama nada, metade do coração é meu. Ele só quer te comer, gatinha. Eu vejo quando ele vê suas fotos e fica se masturbando, e com a minha mão. E a outra enfiando no cu. Porque você sabe né, eu sou bi, mas nós temos um cu só. Logo, meu irmão também gosta de levar na bundinha, assume po!
- Pra mim chega. Tchau Lucas, Matheus, seja lá o que vocês forem.

***


- Já chegou?
- Cris,me abrace.
- O que aconteceu?
- Me abrace, forte. E promete pra mim que nunca vai se grudar em mais ninguém.
- Prometo.

***

- Lu, você leu o jornal essa manhã?
- Ainda não, o que está escrito?
- Uma notícia bizarra: “Gêmeo siamês dá um tiro na cabeça do irmão, e depois se mata”. Que coisa mais tosca. E se chamavam Lucas e Matheus.
- Cris, me abrace. Forte.

Por Liliane Akamine

sábado, 5 de junho de 2010

Silêncios Constrangedores

- E então...
- Pois é.
- E o São Paulo?
- Joga na semana que vem.
- Acha que eles tem alguma chance?
- Se largarem mão de ficar usando aquele pinheiro como pivô, pode ser.
- Acho que vão mantê-lo.
- Que coisa.
- Mas e aí, foi ver 2012?
- Não achei tudo isso não. Forçação de barra. Mensagens religiosas a torto e direito. Arca de Noé, Cristo Redentor caindo, Capela Sistina rachando na Criação.
- Mas a parte do avião foi legal, admita.
- Do pequeno ou do grande?
- Dos dois. Aquele Antonov russo gigantesco é muito louco.
- Vi há alguns dias Pulp Fiction. Nunca tinha visto.
- E o que achou?
- Diferente. Interessante. Gostei.
- Coisas boas sempre ficam. Deveria ver Jackie Brown.
- Fica a dica.
- Então, qualquer coisa com a geografia, dá um toque e eu passo minhas anotações pra você por e-mail.
- Tudo bem. Eu vou indo tomar um banho.
- Eu vou indo nessa, eu sei o caminho.


***


Saul e Ezequiel acabaram de colocar as roupas. O ar ainda estava pesado com o cheiro de sexo na sala de televisão, com o videogame ainda em pausa. O que haviam compartilhado naquele momento de impulso, lascívia e descoberta reverberava como carrilhões em suas cabeças.


Nenhum dos dois havia sequer pensado naquela possibilidade há menos de meia hora. Em meio a uma partida de futebol virtual, Ezequiel se exaltou durante uma jogada de ataque e escorregou do sofá para o chão, onde Saul tentava manter o empate. O toque involuntário entre ambos, que em condições normais geraria piadas e empurrões mútuos, apenas acabou silenciando-os.


Mudaram de jogo. Escolheram um jogo de luta. Vale-tudo. Silenciosamente colocaram suas representações em combate. O olhar que antes era para tentar prever os movimentos do outro na tela começou a ser para reparar feições, reações, posturas. Começaram a se estudar de uma maneira quase incompreensível para qualquer outra pessoa no mundo.


Quando Ezequiel foi celebrar a vitória no videogame, foi calado com os lábios de Saul, e foi tomado pela surpresa. Já estivera com meninas e sabia do que gostava. Mas a surpresa e o crescendo de emoções desde aquele contato inesperado naquela sala de televisão. Levantou-se, foi até a porta.


- Ezequiel, espera aí!, disse temeroso, sem notar que seu amigo apenas girara a chave na tranca, garantindo que ninguém entraria facilmente. “Vem cá”, disse-lhe enquanto agarrava os ombros de seu amigo e devolvia o beijo. Ambos correram para fechar as janelas da sala enquanto trocavam carícias que acabariam no sofá de três lugares da família de Saul.


Com uma naturalidade medonha ambos livraram-se de suas roupas e, sem dizer uma só palavra, exploraram cada centímetro do corpo um do outro com as mãos, olhos, pele, boca e todos os sentidos do qual dispunham.


***


Colocaram a roupa em silêncio depois do ato consumado, trocaram meras palavras. Saul saiu calado e marcou de juntar a galera para um churrasco no final de semana em sua casa. Ezequiel concordou com a maior naturalidade do mundo.


Sabiam que haviam chegado a um ponto de suas vidas onde dificilmente haveria um retorno. E sabiam que nem toda a conversa fiada do mundo iria calar o coral de vozes duvidosas em suas cabeças.


Por André Diniz

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Um mundo perfeito*

* O conto que você lerá a seguir é de autoria de Leshrac, autor convidado que o "Estórias Gozadas" agora apresenta. Para ter seu texto publicado neste espaço, envie e-mail para o endereço: estoriasgozadas@gmail.com

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Lembro dos meus treze anos na escola. Quer dizer, é estranho lembrar pois não consigo me ver com o pensamento daquela época, é como se desde sempre eu conseguisse ter um pensamento adulto, claro que isso é somente uma armadilha pois eu era uma criança, aliás, eu era uma criança aprendendo a amar, pois foi nessa idade que conheci meu primeiro amor, Viviane. Viviane tinha quinze anos, em uma época que dois anos contam muita coisa, tinha grandes e tristes olhos verdes, quando tive oportunidade de ler Dom Casmurro, já mais velho, entendi o que ele quis dizer com os olhos de ressaca de Capitú, esses eram os olhos de Viviane. Seu cabelo bem escuro e suas sardas lhe davam um ar pitoresco e de destaque frente a qualquer garota daquela escola e eu a amava. Obviamente nunca tive coragem de declarar isso a ninguém, uns cinco anos depois soube que ela virou uma porra-louca bissexual que trepava com qualquer um, mas em minha cabeça sempre ficara aquela imagem virginal pura e imaculada, exatamente por isso tremo de tesão ao vê-la agora agachada chupando meu pau, não a Viviane lésbica, mas a virginal de 15 anos, só para mim agachada a minha frente, e me chupando.


Não me pergunte o porque disso ocorrer, se estou sonhando ou não, só me lembro de entrar numa sala e ver uma garota nua em um canto, correu, me abraçou me encarou com aqueles olhos que levam um homem à glória ou à ruína, e começou a tirar a minha calça, e me mamar vertiginosamente. Em meio ao mar de sensações um abraço por trás me aconchega, lambe minha nuca, morde minha orelha e começa a arrancar minha blusa, lembro do cheiro de priscila, minha primeira foda com 15 anos, ela tinha 19 e trabalhava em casa, garota miúda, magra mas com uma bunda inesquecível e um fogo inesgotável, eu a chamo de minha primeira professora, e agora ela estava ali, arrancou minha blusa e enquanto trançava o braço no cabelo de Viviane para forçar mais a chupada me beijou da forma mais voluptuosa possível.


O êxtase, Priscila arranca Viviane do meu pau, lhe dá um beijo demorado na boca a deita no chão e me manda lhe foder o cu, como nos velhos tempos, e começa a chupar Viviane, sinto outras mãos me acariciando, Amanda à minha esquerda, Kátia à minha direita, atrás de mim Carol, meu triunvirato de namoradas, minha História de vida dos dezesseis aos vinte e sete anos, elas me beijam, acariciam me veneram, me ajudam a penetrar Priscila. Vejo vultos de pessoas na sala, todas que eu amei de alguma forma estavam ali, se beijando, se comendo, era como se toda a sala respirasse em um mesmo e cadenciado ritmo, o ritmo das minhas estocadas.


Por último chegou a Fabiane, minha esposa grávida de sete meses, me deu os peitos para mamar como uma mãe faz a um filho e senti seu leite em minha boca, ela sentou então nas costas de Priscila, e me mandou fuder sua buceta, parei o que estava fazendo com Priscila e fui foder Fabiane que deitara nas costas da Pri, foi algo intenso, tudo respirava como um único organismo, um mar de orgasmos e gemidos, e quando gozava Fabiane disse: _Goza dentro de mim e batiza sua filha. O mundo explodiu em gemidos e foi o fim, o silêncio e a paz após o esporro.


_Puta que pariu, Jairo! Doutor Carlos pediu para suspender os sedativos do paciente 27 novamente? O filho da puta esporrou toda a sala, eu não vou limpar essa merda, quando vim pra cá não me falaram nada de ter que limpar porra de louco. Que merda!




Por Leshrac

domingo, 18 de abril de 2010

As pernas do Roberto

Ana é uma mulher como tantas outras. Moradora da periferia paulistana, trabalha como doméstica e é apaixonada pelo Roberto Carlos. Seu sonho é ver de perto as pernas dele. A tietagem virou idolatria, a idolatria virou obsessão e Ana passou a perseguir Roberto Carlos onde quer que ele estivesse. Se soubesse que ele desembarcaria em São Paulo, lá estava Ana um dia antes aguardando ansiosamente. E, quando via de longe o tumulto que indicava a presença de seu muso inspirador, Ana gritava: “Roberto, mostre as pernas!”

João é um homem como tantos outros. Morador da periferia paulistana, trabalha como pedreiro e é apaixonado por futebol. E por mulheres. Seu sonho é encontrar uma mulher para chamar de patroa. Boa praça que é, João é muito conhecido e respeitado na região de Heliópolis e é este conhecimento que gera a maior parte de seu sustento, pela indicação de conhecidos. Em uma dessas indicações João foi chamado para auxiliar na reforma de uma mansão no Morumbi. Mas não era qualquer mansão, e sim a mansão do jogador Roberto Carlos.

João trabalhava muito feliz e ganhava mais do que de costume. Aos finais de semana, João freqüentava o forró Ás de Ouro e em uma dessas idas conheceu uma bela morena que dançava o Arrocha na pista:

- Oi buniteza, qual sua graça?
- Ana. Disse ela, abrindo um sorriso sincero.
- João, seu criado. Nunca te vi por essas bandas.
- É que trabalho bastante. Sou doméstica e só dá pra mim vim uma vez por mês, cê sabe né?
- Ah, tendeu. Eu sou mestre. De obras. Trabalho na mansão do Roberto. Roberto Carlos, né, mas não gosto de ficar assim me gabando.

Neste momento os olhos de Ana brilharam e ela teve a reação mais nonsense de sua vida. Virou-se para João e disse: - Eu te amo.
João, sem entender, só teve tempo de agarrar a dama pela cintura e levar até o toillete. Lá ele só se deu ao trabalho de abrir sua braguilha e sentar no vaso. Ana já havia tirado a calcinha por baixo da saia e sentou com força naquele membro rijo, fazendo movimentos frenéticos, talvez excitada por ter ouvido o nome de Roberto Carlos. Os gritos de gozo foram abafados pela banda de forró que gritava no palco e em menos de dez minutos eles já estavam de volta à pista, aos abraços e beijos.

Os dias foram passando e o casal estava cada vez mais apaixonado. Eles se encontravam às sete da noite todos os dias, em frente ao boteco do Bigode e lá João contava como tinha sido seu dia na mansão de Roberto e dava detalhes da casa, enquanto Ana se imaginava lá dentro, com o próprio Roberto Carlos. A conversa sempre acabava em sexo, onde quer que fosse. Um tesão incontrolável tomava o corpo de Ana e ela nem esperava chegar em casa, já começava a se esfregar em João no meio da rua. Certa vez, de tão excitada que estava, Ana chupou João dentro do ônibus, no último banco. João percebeu que o cobrador viu e nunca mais deixou Ana andar sozinha naquela linha.
Próximo a completar um mês de namoro, João queria fazer uma surpresa a Ana. Queria algo grandioso, que marcasse aquela data e mostrasse a ela o quanto ele desejava tê-la como “patroa”.

João teve uma idéia: apresentar Ana a Roberto Carlos. Mas como? Não queria que o chefe percebesse que ele era um paga pau dele, pois pegaria mal. Também não queria comprometer seu trabalho, afinal faltava menos de um mês pra ele receber a outra metade do dinheiro da reforma. João passou uma noite em claro, pensando em como presentear sua amada e teve uma idéia. Ligou logo cedo pra Ana:

- Coração, sábado a gente faz um mês junto né? Vou te levar num lugar que você nunca vai esquecer.

Chegado o grande dia. Às seis e meia, João pegaria Ana em frente o boteco do Bigode. Era sábado e João trabalharia até o meio-dia. Naquele dia Roberto Carlos chegaria cedo dos treinos, pois não jogaria no final de semana. João terminou seu trabalho, tomou banho e deu início ao plano mais bizarro já arquitetado por um apaixonado. Ele sabia que aos sábados, depois que ele e seu colega pedreiro saíam, as únicas pessoas que permaneciam na casa era o segurança, a cozinheira e dois cachorros enormes, além do próprio Roberto. João começou rendendo o segurança com uma gravata, e como o mesmo reagiu, não teve outro jeito: João feriu o homem com uma facada nas costas. Os cachorros começaram a latir e logo João teve que dar um fim neles também. Faltava a cozinheira. João foi até as dependências dos empregados e Dona Célia estava tomando banho, aí foi moleza. Em poucos minutos o corpo da senhora de quarenta e poucos anos fazia companhia ao do segurança.

João ainda aguardou na guarita e, quando Roberto Carlos chegou, fez questão de abrir o portão automático. Logo foi até ele e, com uma punhalada, o deixou desacordado, o que permitiu que João o levasse até o quarto e o algemasse na cama.

Seis e meia e João estava no boteco do Bigode, esperando sua amada. Ana chegou perfumada e com o batom vermelho que comprara especialmente para aquela ocasião. João fez questão de ir de taxi até o local da surpresa. Quando chegou à mansão, João vendou os olhos de Ana e a guiou até o quarto de Roberto Carlos, onde o mesmo estava algemado na cama. A intenção de João era que sua amada conhecesse o ídolo e ficasse tão excitada que fizesse qualquer coisa por ele naquela noite.

Quando entraram no quarto, João tirou a venda dos olhos de Ana. E lá estava a cena: João querendo impressionar sua amada, Roberto Carlos amordaçado e algemado na cama, e Ana estarrecida.

- Quem é este careca, bem?
- Ué coração, seu ídolo, Roberto Carlos. Esta é a surpresa: eu, você e o Roberto olhando a gente se amar. E eu deixo você sentar na perna dele viu? Hoje a noite é sua.
- Não, bem, você não entende. Eu não sei quem é esse careca. Olha meu senhor, peço desculpas pelo acontecido. Meu sonho é sentar na perna do Roberto Carlos, o rei, o cantor.
- O cantor?? Porra, Ana, ele tem perna mecânica! Você sabe o que eu fiz pra te fazer essa surpresa?
- Desculpa bem, mas você nunca me perguntou. E sinceramente, eu nunca vi esse careca aí, nem sei se ele sabe cantar “As Curvas de Santos”.
- E esse careca aqui, você viu? Disse João, tirando o pau pela braguilha e balançando.
- Esse careca aí eu conheço, conheço bem. Nunca vi cantando,mas o dono dele sempre me canta.
- Então vem dançar pra ele, minha gostosa.
Ana e João começaram a se esfregar ali, no quarto de Roberto Carlos, enquanto o jogador permanecia algemado e amordaçado na cama. E Ana disse:
- É “seo” careca, é assim, o côncavo e o convexo, nosso amor no sexo.


Por Liliane Akamine

terça-feira, 30 de março de 2010

Lágrima

Crédito da foto: http://www.flickr.com/photos/coitadacassia - imagem meramente ilustrativa.


Hannelore – moça canadense, vinda do intercâmbio, com seus 17 aninhos, 11 meses e 30 dias – deitava na cama. A minha cama, de solteiro. Aninhava-se em mim para ouvirmos juntos a trilha de Beleza Americana no computador, enquanto eu estava tentando enrolar meu primeiro baseado.

Por alguma presepada quando fui montar a pasta dos MP3, entra Massive Attack depois de ‘Choking The Bishop’, aquela música onde o Kevin Spacey toca uma pensando que está entrando no banheiro e encontra a Mena Suvari – loirinha, ninfeta e biscate – numa banheira cheia de pétalas de rosas. Dei o trago e passei para a mocinha branquela e com olheiras de urso panda, enquando dedilhava por suas coxinhas magrelas.

Love, love is a verb
Love is a doing word
Fearless on my breath


Além do cheiro de incenso e fumo, sentia o cheiro do perfume em seu pescoço (sempre digo pescoço, mas o povo costuma chamar de “cangote”. Não gosto dessa palavra, me lembra a novela da Tieta, Deus sabe o motivo).

Ela já entendia um pouco de português, então fui dizendo bem ao pé do ouvido dela, com minha voz sacana e numa mistura de português e inglês com sotaque indiano, sobre como eu achava aquele cheiro a tradução do paraíso. A desgraçadinha me olhou e disse: “Let’s do it”.

Meu passaporte para o inferno estava pronto. E eu ia tocando piano. Igual ao Jerry Lee Lewis.

Gentle impulsion
Shakes me makes me lighter
Fearless on my breath


A música continuava tocando solta enquanto eu descia pelo abdome dela, liso e com marcas de sol. Demorei-me um pouco alisando as costelas dela enquanto beijava e passava a língua de leve em seu umbigo. Fiz um passeio por seu ventre (ainda por cima da calcinha), e segui beijando e acariciando suas pernas longas e lisas como um lençol de cetim. (Deus abençoe o Ocidente e seus padrões estritos de beleza) até chegar a seus pés.

Sempre tive esse fetiche por pés, e sempre me colocava numa posição que me permitia vê-la como Moisés viu a Terra Prometida antes de morrer. O rosto semiiluminado pela noite de lua cheia, o sorriso leve no rosto, aqueles dois suspirinhos apontados para cima. Aquilo era a prova de que Deus existia. E como queria tomar aquilo tudo para mim.

Eu poderia, naquele instante, em que eu já estava pronto, ter simplesmente a comido como qualquer outro talarico faria. Ela, na minha opinião, merecia um pouco mais de brincadeiras. Ainda mais quando notei que ela ainda era virgem. Jackpot, como dizem lá na gringa. Acertei no milhar.

A calcinha dela estava bem longe quando tomei seu quadril para mim e coloquei-o ao alcance do meu rosto. O reflexo inicial mostrava que ela ainda não tinha pleno conhecimento do seu corpo, e pensava comigo mesmo “Isso não pode ser verdade”. Pensar enquanto se prova do licor de uma ninfeta é o pior pecado que existe, pior que tomar vinho do Porto com gelo no copo de plástico. Recobrei-me dos meus pensamentos e continuei sentindo aquele cheiro e aquele gosto adocicado.
Sabia que daquele ponto em diante, pelo menos para mim, não teria retorno. Mas dependia exclusivamente dela. Quando subi e comecei a beijar, acariciar e brincar com os seus mamilos, notei uma pequena lágrima no canto do olho dela. Acho que eu a assustei. Para quem oficialmente era virgem, a primeira base tinha ficado há alguns quilômetros para trás.

- Se quiser parar, é só dizer.
- Get on with it. Continua. Está bom.

Water is my eye
Most faithful mirror
Fearless on my breath

Coloquei-a sobre mim, com todo o cuidado do mundo. Sabia que qualquer erro iria colocar todo o trabalho a perder. Deixei-a se acostumar. Relaxar. Curtir a viagem. Ela pegou o baseado, acendeu-o de novo e deu uma tragada enquanto estava em cima de mim. Senti-a se revolver dentro de si. Como se deixasse algo dentro dela fluir, sair, tomar conta. Ela descobrira alguma coisa naqueles quinze segundos em que eu estava debaixo dela, vendo-a nua, descabelada. Foi como ver o paraíso dessa vez.
Subindo o ritmo, pouco a pouco, colocando-a em contato com o Diabo, fazendo-a ter um orgasmo de verdade. O pecado da vaidade de pensar em fazê-la gozar me fazia ir em frente. Me inspirava, me deixava mais em ponto de bala ainda.
-Feliz aniversário, Hanners.

Teardrop on the fire of a confession
Fearless on my breath
Most faithful mirror
Fearless on my breath


Passei alguns dias andando nas nuvens. Aquela tinha sido a minha primeira boa trepada em meses de seca absoluta. Um retorno digno de Elvis Presley. Algumas semanas depois, eu a vi chegando da escola. Dez minutos depois, um moleque com cabelos espetados chegou em casa. Ela subiu direto para o quarto.

Ouviram Massive Attack a tarde inteira. Sozinhos. No quarto. Pingo é letra, e música sob portas fechadas é roteiro para coisas na mente de qualquer um.
Hannelore Saiu do quarto pouco antes do jantar, me abraçou com carinho e me beijou a testa, quanto estava um patamar mais baixo. “Obrigada”, ela sussurrou com uma voz quase em pedido de perdão.

Foi ali que eu descobri que, durante todo o lance, em nenhum momento estive no comando da situação. E nunca estaremos.

You're stumbling a little...


****
- Meus mais sinceros pedidos de perdão a Dalton Trevisan.



Por André Diniz.
blog: http://thecokeinc.blogspot.com/

sábado, 27 de março de 2010

Cooper feito

Sempre, todas as manhãs (seja ela de sábado, domingo, ou feriado) como o meu sagrado meio mamão macho e bebo um copo de leite semidesnatado e vou ao parque que fica próximo à minha casa correr. Faço um severo alongamento igual a um que vi no youtube, feito por bailarinas da antiga União Soviética. Dei um jeito de fazer o download, pois manjo muito de informática, e decorei os procedimentos. Tem até uns velhinhos lá no parque que discretamente me imitam, mas, modéstia a parte, eles não me acompanham quando estico minhas pernas até os meus pés ficarem acima da cabeça, apoiados numa barra, e assim permanecer por um minuto e meio cronometrado. Também faço exercícios de massa muscular como barras, flexões variadas, abdominais. Vou pra lá correr e ver mulher, mas delas falo já – como mestre de cerimônias que se preze, tenho que começar pelo trivial, ambientar o leitor ao diálogo e depois pumba!


Dias atrás, quando eu ainda era um desempregado. Sim, hoje me considero um profissional liberal mesmo que sem ter firma aberta. Quando eu ainda me considerava um frustrado socialmente (não que eu fosse desses babacas depressivos, não). Frustrado porque o que eu gostava de fazer não me dava dinheiro e, por isso, trabalhava por algum tempo num emprego-diurno, com dizem os americanos... até juntar dinheiro para ficar outro tempo fazendo somente o que eu gosto. Dinheiro para comprar mamão, leite semidesnatado e carne. O que é uma vida sem prazeres, afinal? É o mesmo que nada – se você não sente prazer é porque você não dá prazer, e de que serve um homem se não dá prazer a ninguém?


Nesse dia aí, do qual eu ia falar antes de ficar divagando, fiz tudo como de costume. Tomei o café da manhã, corri até o parque, me alonguei trocando olhares com as mulheres, depois fui para a corrida. No alongamento de depois do Cooper feito foi que vi as duas: uma sentada no banco e a outra deitada, com a cabeça no colo da primeira. Eram mulheres jovens e, certamente, estavam matando aula, pois usavam uniforme de uma escola particular que fica próxima daqui. Não eram lá muito bonitas, mas intimidade e isso me enfeitiça. Não titubeei, postei bem em frente a elas e comecei minha sessão de alongamento e olhares fugazes que, depois, tornaram-se voluptuosos. Elas começaram a dar risadinhas, mas o ponto alto no flerte foi quando a que estava sentada começou a acariciar a barriga da deitada. Não agüentei.


“Vocês têm horas?”. “Tenho sim, peraí” “dez e seis”, a outra respondeu. “Obrigado, é que meu relógio quebrou...”. Silêncio e olhares. Elas seguravam o riso, mas não deixavam de me encarar. Nunca fui muito bom de xaveco, dessas conversas moles que os homens desenvolvem para mostrar às mulheres que são capazes de lhes dar proteção e prazer (nesta ordem). Agachei-me e apoiei o cotovelo no joelho da que estava sentada, sem tirar os olhos de seus olhos. “Você está todo suado!” “suado e salgado” respondi. Sei que foi idiotice, mas menos idiota que ficar calado. “Credo!” “ah, outro dia você disse que eu estava salgada e se lambuzou toda” interveio a deitada, “pare de falar assim com o moço!”


Ah, nessa hora meu coração foi a mil. E olha a adrenalina não costuma fazer muito efeito no meu corpo, ainda mais após um treino puxado como foi o de hoje, mas dessa vez fiquei fervendo mesmo. “Quero as duas”, eu disse, sem piscar. Elas se riram.

Resumindo, me passaram o endereço da casa de uma delas e marcamos para o dia seguinte, às três da tarde, pois é hora que a doméstica do apartamento vai embora. Era só chegar à portaria e falar que era o técnico de informática. Elas queriam que eu falasse que era o encanador, mas não tenho nem cara nem idade de encanador e, se tem uma coisa que faço que se aproxime de uma profissão, essa coisa é trabalhar o físico e a mente de computadores.


No outro dia peguei leve no treino para ter energia para as duas. Já fiz isso antes, mas é sempre uma missão bolivariana conquistar dois continentes de forma satisfatória. Arrumei-me, coloquei a camiseta regata da sorte e fui. Na portaria falei o combinado, “sou Aldebaran, técnico de informática”. “Já estava avisado que chegaria, pode subir.” Essa foi fácil, pensei, mesmo usando meu nickname. Mas quando estava passando em frente à cabine, ele ainda me perguntou sobre a pasta com o material de trabalho. Nunca respondo nada rápido, mas dessa vez fui ligeiro e me alegro até hoje por ter falado que era apenas um orçamento de análise de hardware. Quanto mais difícil a resposta, mais entendida ela é, disso sempre eu soube e não importava que troquei software por hardware – que se dane.


Conferi o número do apartamento antes de tocar a campainha, estava ok. Respirei fundo e pumba! Mas aí começou minha confusão mental: por que diabos uma senhora de meia idade, vestida de roupão, abriria a porta, sorrindo? Três já é demais, pensei. Que fosse isso... mas elas poderiam ter me avisado que entrou mais uma na jogada. “Entre, por favor”. “Com licença”. “O computador fica lá no quarto, você prefere consertá-lo lá ou aqui na sala mesmo?” Não esperava essa pergunta, então escolhi o quarto, depois de hesitar um pouco. “Vocês cobram adiantado, não é? O dinheiro está aqui em cima, pode pegá-lo e guardá-lo. Mas se solte um pouco mais, até parece que nunca consertou um computador antes!” O sorrisinho faceiro dela e a entonação que dava à palavra computador me deixavam ressabiado. Resolvi, então, perguntar “e as meninas que chamaram os meus serviços... acho que precisarei delas para arrumar o computador” .“Ah sim, elas estão no cursinho pré-vestibular. Mas o computador que precisa de reparo é o meu”. Daí a ficha realmente caiu. Não estava querendo acreditar mas era fato, as danadinhas (e a danadona) me deram um golpe. Eu era, definitivamente, um puto. Estava já me voltando para ir embora, indignado, quando vi as três onças em cima da mesa. ‘Afinal’, pensei, ‘de que serve um homem se não dá prazer pra ninguém?’.


Enchi o peito de ar e fui para cima da La Vecchia Signora. No quarto, a primeira coisa que fiz foi fechar a janela, afinal, o que os olhos não veem o pau não recusa. Mas ela tratou de acender a luz para “ver esse seu corpão que, durante uma hora, será meu”. E foi mesmo. Ela é alucinante. Tem um domínio técnico apurado que promove uma transa sistemática com tudo sob controle – causa e consequência.


No quesito libertinagem, as mulheres mais experientes dão um banho nas mais mocinhas. E isso fascina todo homem que sonha reproduzir todas as sacanagens acumuladas em anos de filmes do gênero. E o buraco símbolo dessa distinção entre as idades femininas é o ânus. Uma mulher pode se considerar amadurecida quando tem segurança o suficiente para compartilhar esse laço estreito com o homem que escolheu para ser seu naquela noite. Não é questão de ser promíscua, e sim de aceitar toda forma de prazer sem ter a preocupação maior do que os outros irão pensar a seu respeito. E nesse quesito, meus amigos, essa dona daria aula de pós-graduação devido ao trabalho em pesquisa teórica e de campo que sua técnica exige. O controle muscular da cavidade e a sintonia com os movimentos do corpo me fez nunca desejar que o gozo chegasse e parte de mim caísse fraca, flácida, encolhida em si mesma. Mas, quando esse ponto chegou e eu não pude segurar, a capacidade altruísta dessa senhora foi tamanha que essa mesma parte de mim nem sentiu o baque da energia dissipada no momento máximo do futebol e agüentou outra partida sem tempo técnico.


Enfim, o cu perfeito.


Quando estava esgotado, ela me avisou que havíamos passado da hora cheia, que é de praxe nesses serviços. “Como é a primeira vez que arrumo seu computador, a prioridade é a satisfação da cliente.” Ela sorriu e pude prestar atenção à sua face rechonchuda e aos dentes manchados de nicotina e, mesmo nessa situação, de puto de uma dona de casa infeliz, sorri de volta. Afinal de que vale um homem se não...


Vestindo-me, perguntei qual era a jogada com as meninas. “Pedi três vezes para elas me arrumarem um garanhão nas academias da redondeza. Mas, das duas vezes, vieram saradões que tinham, por assim dizer, disfunção erétil de origem emocional e não cumpriram bem o proposto. O outro não quis fazer o serviço. Então, dessa vez, pedi que elas fossem ao parque estadual.” “Mas quem são elas?” “Ah, elas moram aqui no condomínio. Em troca desse favor deixo que elas usem um dos quartos para brincarem em paz.”


Deixei meu telefone com ela e pedi que me indicasse para amigas. Já me acostumara com a idéia – o ser humano se adapta a tudo, dizem. Como ela dissera que não tinha amigas na mesma situação, então falei que tudo bem. O dinheiro que ganhei nessa tarde investi em propaganda, afinal, essa é a alma do negócio, não? E deu certo, foi assim que arrumei uma profissão que me permite fazer o que mais gosto. Só adicionei amendoim e catuaba à minha dieta.


E serei eternamente grato àquele cu perfeito.


Sobre o autor:

Wellington Souza é poeta, contista e aspirante a tecnocrata.

blog: www.hiper-link.blogspot.com