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sábado, 27 de março de 2010

Cooper feito

Sempre, todas as manhãs (seja ela de sábado, domingo, ou feriado) como o meu sagrado meio mamão macho e bebo um copo de leite semidesnatado e vou ao parque que fica próximo à minha casa correr. Faço um severo alongamento igual a um que vi no youtube, feito por bailarinas da antiga União Soviética. Dei um jeito de fazer o download, pois manjo muito de informática, e decorei os procedimentos. Tem até uns velhinhos lá no parque que discretamente me imitam, mas, modéstia a parte, eles não me acompanham quando estico minhas pernas até os meus pés ficarem acima da cabeça, apoiados numa barra, e assim permanecer por um minuto e meio cronometrado. Também faço exercícios de massa muscular como barras, flexões variadas, abdominais. Vou pra lá correr e ver mulher, mas delas falo já – como mestre de cerimônias que se preze, tenho que começar pelo trivial, ambientar o leitor ao diálogo e depois pumba!


Dias atrás, quando eu ainda era um desempregado. Sim, hoje me considero um profissional liberal mesmo que sem ter firma aberta. Quando eu ainda me considerava um frustrado socialmente (não que eu fosse desses babacas depressivos, não). Frustrado porque o que eu gostava de fazer não me dava dinheiro e, por isso, trabalhava por algum tempo num emprego-diurno, com dizem os americanos... até juntar dinheiro para ficar outro tempo fazendo somente o que eu gosto. Dinheiro para comprar mamão, leite semidesnatado e carne. O que é uma vida sem prazeres, afinal? É o mesmo que nada – se você não sente prazer é porque você não dá prazer, e de que serve um homem se não dá prazer a ninguém?


Nesse dia aí, do qual eu ia falar antes de ficar divagando, fiz tudo como de costume. Tomei o café da manhã, corri até o parque, me alonguei trocando olhares com as mulheres, depois fui para a corrida. No alongamento de depois do Cooper feito foi que vi as duas: uma sentada no banco e a outra deitada, com a cabeça no colo da primeira. Eram mulheres jovens e, certamente, estavam matando aula, pois usavam uniforme de uma escola particular que fica próxima daqui. Não eram lá muito bonitas, mas intimidade e isso me enfeitiça. Não titubeei, postei bem em frente a elas e comecei minha sessão de alongamento e olhares fugazes que, depois, tornaram-se voluptuosos. Elas começaram a dar risadinhas, mas o ponto alto no flerte foi quando a que estava sentada começou a acariciar a barriga da deitada. Não agüentei.


“Vocês têm horas?”. “Tenho sim, peraí” “dez e seis”, a outra respondeu. “Obrigado, é que meu relógio quebrou...”. Silêncio e olhares. Elas seguravam o riso, mas não deixavam de me encarar. Nunca fui muito bom de xaveco, dessas conversas moles que os homens desenvolvem para mostrar às mulheres que são capazes de lhes dar proteção e prazer (nesta ordem). Agachei-me e apoiei o cotovelo no joelho da que estava sentada, sem tirar os olhos de seus olhos. “Você está todo suado!” “suado e salgado” respondi. Sei que foi idiotice, mas menos idiota que ficar calado. “Credo!” “ah, outro dia você disse que eu estava salgada e se lambuzou toda” interveio a deitada, “pare de falar assim com o moço!”


Ah, nessa hora meu coração foi a mil. E olha a adrenalina não costuma fazer muito efeito no meu corpo, ainda mais após um treino puxado como foi o de hoje, mas dessa vez fiquei fervendo mesmo. “Quero as duas”, eu disse, sem piscar. Elas se riram.

Resumindo, me passaram o endereço da casa de uma delas e marcamos para o dia seguinte, às três da tarde, pois é hora que a doméstica do apartamento vai embora. Era só chegar à portaria e falar que era o técnico de informática. Elas queriam que eu falasse que era o encanador, mas não tenho nem cara nem idade de encanador e, se tem uma coisa que faço que se aproxime de uma profissão, essa coisa é trabalhar o físico e a mente de computadores.


No outro dia peguei leve no treino para ter energia para as duas. Já fiz isso antes, mas é sempre uma missão bolivariana conquistar dois continentes de forma satisfatória. Arrumei-me, coloquei a camiseta regata da sorte e fui. Na portaria falei o combinado, “sou Aldebaran, técnico de informática”. “Já estava avisado que chegaria, pode subir.” Essa foi fácil, pensei, mesmo usando meu nickname. Mas quando estava passando em frente à cabine, ele ainda me perguntou sobre a pasta com o material de trabalho. Nunca respondo nada rápido, mas dessa vez fui ligeiro e me alegro até hoje por ter falado que era apenas um orçamento de análise de hardware. Quanto mais difícil a resposta, mais entendida ela é, disso sempre eu soube e não importava que troquei software por hardware – que se dane.


Conferi o número do apartamento antes de tocar a campainha, estava ok. Respirei fundo e pumba! Mas aí começou minha confusão mental: por que diabos uma senhora de meia idade, vestida de roupão, abriria a porta, sorrindo? Três já é demais, pensei. Que fosse isso... mas elas poderiam ter me avisado que entrou mais uma na jogada. “Entre, por favor”. “Com licença”. “O computador fica lá no quarto, você prefere consertá-lo lá ou aqui na sala mesmo?” Não esperava essa pergunta, então escolhi o quarto, depois de hesitar um pouco. “Vocês cobram adiantado, não é? O dinheiro está aqui em cima, pode pegá-lo e guardá-lo. Mas se solte um pouco mais, até parece que nunca consertou um computador antes!” O sorrisinho faceiro dela e a entonação que dava à palavra computador me deixavam ressabiado. Resolvi, então, perguntar “e as meninas que chamaram os meus serviços... acho que precisarei delas para arrumar o computador” .“Ah sim, elas estão no cursinho pré-vestibular. Mas o computador que precisa de reparo é o meu”. Daí a ficha realmente caiu. Não estava querendo acreditar mas era fato, as danadinhas (e a danadona) me deram um golpe. Eu era, definitivamente, um puto. Estava já me voltando para ir embora, indignado, quando vi as três onças em cima da mesa. ‘Afinal’, pensei, ‘de que serve um homem se não dá prazer pra ninguém?’.


Enchi o peito de ar e fui para cima da La Vecchia Signora. No quarto, a primeira coisa que fiz foi fechar a janela, afinal, o que os olhos não veem o pau não recusa. Mas ela tratou de acender a luz para “ver esse seu corpão que, durante uma hora, será meu”. E foi mesmo. Ela é alucinante. Tem um domínio técnico apurado que promove uma transa sistemática com tudo sob controle – causa e consequência.


No quesito libertinagem, as mulheres mais experientes dão um banho nas mais mocinhas. E isso fascina todo homem que sonha reproduzir todas as sacanagens acumuladas em anos de filmes do gênero. E o buraco símbolo dessa distinção entre as idades femininas é o ânus. Uma mulher pode se considerar amadurecida quando tem segurança o suficiente para compartilhar esse laço estreito com o homem que escolheu para ser seu naquela noite. Não é questão de ser promíscua, e sim de aceitar toda forma de prazer sem ter a preocupação maior do que os outros irão pensar a seu respeito. E nesse quesito, meus amigos, essa dona daria aula de pós-graduação devido ao trabalho em pesquisa teórica e de campo que sua técnica exige. O controle muscular da cavidade e a sintonia com os movimentos do corpo me fez nunca desejar que o gozo chegasse e parte de mim caísse fraca, flácida, encolhida em si mesma. Mas, quando esse ponto chegou e eu não pude segurar, a capacidade altruísta dessa senhora foi tamanha que essa mesma parte de mim nem sentiu o baque da energia dissipada no momento máximo do futebol e agüentou outra partida sem tempo técnico.


Enfim, o cu perfeito.


Quando estava esgotado, ela me avisou que havíamos passado da hora cheia, que é de praxe nesses serviços. “Como é a primeira vez que arrumo seu computador, a prioridade é a satisfação da cliente.” Ela sorriu e pude prestar atenção à sua face rechonchuda e aos dentes manchados de nicotina e, mesmo nessa situação, de puto de uma dona de casa infeliz, sorri de volta. Afinal de que vale um homem se não...


Vestindo-me, perguntei qual era a jogada com as meninas. “Pedi três vezes para elas me arrumarem um garanhão nas academias da redondeza. Mas, das duas vezes, vieram saradões que tinham, por assim dizer, disfunção erétil de origem emocional e não cumpriram bem o proposto. O outro não quis fazer o serviço. Então, dessa vez, pedi que elas fossem ao parque estadual.” “Mas quem são elas?” “Ah, elas moram aqui no condomínio. Em troca desse favor deixo que elas usem um dos quartos para brincarem em paz.”


Deixei meu telefone com ela e pedi que me indicasse para amigas. Já me acostumara com a idéia – o ser humano se adapta a tudo, dizem. Como ela dissera que não tinha amigas na mesma situação, então falei que tudo bem. O dinheiro que ganhei nessa tarde investi em propaganda, afinal, essa é a alma do negócio, não? E deu certo, foi assim que arrumei uma profissão que me permite fazer o que mais gosto. Só adicionei amendoim e catuaba à minha dieta.


E serei eternamente grato àquele cu perfeito.


Sobre o autor:

Wellington Souza é poeta, contista e aspirante a tecnocrata.

blog: www.hiper-link.blogspot.com


domingo, 20 de dezembro de 2009

Uma estória verídica que se passou com o amigo de um amigo meu

Uma estória verídica que se passou com o amigo de um amigo meu (contada em primeira pessoa para dar o tom de veracidade que a fonte duvidosa rouba) e que me foi contada pelo casal, em uma mesa de bar.


UM LADO


Era para ser um fim de semana anormal, visto que há tempos não nos encontrávamos e uma certa falta de entrosamento poderia rolar. Mas foi normal, pois tudo o que acontece quando encontro meus amigos da faculdade aconteceu. Álcool, mulheres, coma-alcoólico, glicose, samba e uma chácara no interior do estado.


As irmãs, primas e mãe do anfitrião confraternizavam com as namoradas dos nossos amigos (os que levaram) e com as prostitutas à paisana que o irmão do mesmo convidara. A banda de pagode era muito bem remunerada com dinheiro e cerveja. Mas a mesa de sinuca estava vazia e eu sem ter com quem jogar.


Já estava desanimado, mas quando vi o sujeito chegar, a coisa mudou. Sabem quando embaralham as cartas e redistribuem? Então, o jogo ganhou nova cara. Descrição: tênis preto, jeans, camisa preta, óculos escuros. Cumprimentou o irmão (o cara das putas) e se pôs num canto, bebendo cerveja só quando o serviam. O fato de usar óculos escuros mesmo debaixo do grande quiosque me chamou a atenção. Peguei uma garrafa e fui servi-lo. Conversa foi e fomos jogar sinuca. Sinuca vai e ele falou que iria ao banheiro. Ok. Perguntou se eu curtia. Mandei tomar no cu. Pirlimpimpim, porra! Ok, vamos. Sai com os olhos acesos, peitos de sargento e, na boca, um gosto amargo e pequenas bolinhas que vieram do sistema respiratório.


Comentei com alguns amigos que o João Estrela estava na balada e a mesa de sinuca ficou com vários times de próximo, assim como a de pebolim e tênis de mesa. Um mais elétrico que o outro.

OUTRO LADO


Mesmo eu me opondo, minhas amigas insistiam para que saíssemos para nos divertir. Essa cidade é um porre. Todo mundo que interessa se conhece. Os que não interessam não interessam e ponto. Duas casas noturnas e alguns bares (barzinhos, como dizem) e ficamos iguais bola de sinuca, cada hora em uma caçapa. Odeio. Mas Zorra-Total tira qualquer uma de casa. Não que eu estivesse entediada, carente de alguém realmente interessante, alguém que não estivesse nas barras do pai doutor ou industrial e da mãe “torta-de-maçã”. Ou estivesse, popularmente, com vontade de dar.


Fomos.


Quando estávamos entrando para pegarmos as comandas, um bando de homens se fez notar rindo, se apontando o dedo e brincando como filhotes de leões. Não eram da cidade. Isso me impressionou.


Já dentro, deixei as meninas seguirem para a pista e fiquei perto da entrada, esperando alguém que não conhecia.


Tempo depois eles passaram, com a mesma euforia da entrada. Já no primeiro posto (à minha frente) pegaram cerveja e nem brindaram, como é de costume por aqui. Foram bebendo para a caça, exceto um, que ficou parado, concentrado em virar uma longneck. Quando parou, encheu o peito de tal maneira que me roubou o ar. Notou-me o notando e jogou sobre mim um olhar e um meio sorriso safado de uma força sutil... Baixei os olhos, sorrindo. Esperei um pouco para subir e olhá-lo e quando o fiz ele já não estava mais lá.


Caí para a festa introspectiva, mas não encontrava as meninas.


No balcão da cerveja sofri um esbarrão. Quando me virei para reclamar eram os olhos e o meio sorriso novamente. Desculpa, escutei. Sorri. Se tem uma coisa que me dá tesão, continuou, é mulher com unhas pintadas de negro; se for pálida assim, então, dá combo; e se for loira de luzes, outro combo. Então tenho... tenho... quatro pontos. E ganhou. Dê-me o prêmio. Beijou. Pegamos as cervejas e fomos para um canto. Vamos tomar um pouco primeiro, senão vou te deixar molhadinha, me falou. Tomamos. Beijamos infinitamente e tinha um gosto meio amargo e anestésico e durante isso não conseguia pensar em nada, era como se eu não existisse. Momento iogue.


Ele não era um cara grande e forte. Do meu tamanho e nem gordo nem magro. Mas seu abraço me possuía de tal maneira, me envolvia em seu campo-de-força que dava a sensação de proteção e plenitude que não sei explicar. E nem o conhecia ou já sabia tudo o que precisava saber sobre ele para poder roçar minha bunda em seu pau sem constrangimentos. E a história da unha, pele e cabelo ficara em mim: ele era totalmente o oposto.


Entre amassos, cervejas e esfregações foi-se a noite mais feliz desse meu ano até então sem-graça e siririquento.


Vamos para um motel, propôs. Hum... Beijo. Vamos. Chamei uma das meninas que vieram de carona comigo, apresentei meu homem. Mas vendo a situação, ela alegou já ter outra pessoa para deixá-la em casa. Na saída, cada um pagou a sua comanda e demos muitos beijos dentro do carro antes de partir (ele até me masturbou enquanto beijava, sensação única, essa).


No caminho ele não tirou a mão das minhas pernas, apertando e acariciando... eu não me agüentava mais... e, quando ele me pediu para estacionar numa rua de pouco movimento para metermos ali mesmo, resisti um pouco, afinal, sou uma mulher jovem e não posso...


Tá bom, vai, mas só umazinha, hein? Ele foi o maestro, como deve ser. Primeiro me fez chupá-lo e ele alisava minha cabeça e minhas costas com uma delicadeza bruta, de massagista. Puxava os cabelos e escorria dos dedos pela face e bochechas (que hora e vez recebia pancadas vindas da parte de dentro).


Único.


Depois me beijava e sua mão se movimentava com destreza entre minhas virilhas lisas e viscosas. Já me tirava gemidos. Tomei a iniciativa de cavalgá-lo. Pulei para o banco do passageiro. Meter e beijar ao mesmo tempo, me falou, é a vantagem dessa posição. E posso sentir o poder do peitoral junto ao meu, acrescentei.


Quando eu estava quase lá, ele decidiu que queria mais cerveja. Pedi para que esperasse um pouco e chamei-o de amor. Vamos lá agora, depois te fodo mais no motel. Péra... péra... e intensifiquei a velocidade e tentei beijá-lo, mas esquivou-se. Vamos logo, caralho, depois te dou mais pinto. Brochei. Abracei-o, beijei o seu pescoço e tirei o celular do seu bolso, jogando-o para o bando de trás.


No banco do motorista novamente me vesti e toquei o carro. Silêncio sepulcral. Estaciono na Conveniência 24 hrs. Heineken para você também? Silêncio. Ok, se quiser ir para a sua casa de Barbie, vá. Já poderei contar que te meti mesmo. Sai.


Dou marcha ré e saio. Lágrimas esparsas caem.


Quero ver como esse paulistano filho da puta vai se virar para achar a chácara dos seus amigos imbecis, sem o celular.


A MOEDA


“Mesmo em casa, não tirei o telefone dele do bolso. Sou idiota e esperei a ligação sem conseguir me concentrar nos estudos para as provas finais. Estava amando, já, e ainda sentia o gosto agridoce do beijo vigoroso daquele homem. Essa palavra, agridoce, foi a que ele usou quando o indaguei sobre o gosto e se tornou um gatilho para a sua imagem em minha mente.”


“Demorei um pouco a ligar. Estava receoso, afinal, uma das poucas lembranças que eu tinha ao sair de casa era de ter levado o celular. Liguei e ela atendeu, né amor? Pedi desculpas. O que conversamos exatamente não interessa agora, mas no fim de semana seguinte voltei parta a cidade dela e começamos.”


“Foi mais ou menos assim...”


“É, mais ou menos...”


“Só não contem com tanto detalhes para a Maria Rita ou Ricardo, quando um deles nascer!”